O treinador de futebol já havia se bloqueado em casas de apostas quando descobriu os mercados de previsão. O contador tributário admitiu sentir a mesma excitação nesses ambientes que sentia ao apostar. "Foi assim que recaí — com Kalshi e Polymarket. Perdi muito dinheiro", revelou.

A ascensão dos mercados de previsão tem gerado um debate acalorado nos tribunais e legislaturas dos EUA. Enquanto as empresas defendem que devem ser regulamentadas como a Bolsa de Valores — devido a leis federais e seu modelo de negociação entre clientes —, casas de apostas e autoridades estaduais argumentam que deveriam ser supervisionadas como plataformas de jogos esportivos.

Enquanto a discussão segue sem solução, profissionais que tratam de transtornos de jogo estão mais preocupados com o que observam em seus pacientes. Para eles, esportes e mercados de previsão levam ao mesmo desfecho.

Relatos de quem viveu a armadilha

Dois apostadores compulsivos ouvidos pela Associated Press — o treinador de futebol e o contador — afirmam ter recaído nos mercados de previsão após tentarem se proteger das tentações das apostas esportivas. Por questões de privacidade, foram identificados apenas por suas profissões. Suas histórias refletem o que especialistas veem diariamente em seus consultórios.

"Pode haver diferenças reais na definição ou regulamentação desses produtos, mas no consultório, vemos o mesmo ciclo de antecipação, ação e reação se repetir constantemente."

— Dra. Cynthia Grant, vice-presidente clínica da Birches Health

A especialista, que atua em uma rede nacional de tratamento para dependência de jogos, compara os mercados de previsão e as apostas esportivas a "portas diferentes para o mesmo quarto". "O rótulo na porta pode mudar, mas, uma vez dentro, a experiência pode ser muito semelhante", explica.

Como os mercados de previsão funcionam — e por que são perigosos

Tanto casas de apostas quanto mercados de previsão oferecem opções semelhantes: apostas em jogos, desempenho de atletas e outros eventos. A diferença está no formato.

Nas casas de apostas, especialistas internos definem as odds, que determinam os pagamentos. É a casa contra os apostadores. Nos mercados de previsão, traders negociam contratos baseados em perguntas de "sim ou não". Os lucros e prejuízos são ditados pelo mercado: se você apostar "sim" em um evento onde a maioria apostou "não", o pagamento é maior. Essas plataformas geralmente lucram com taxas sobre os contratos.

Para viciados em apostas, os dois caminhos levam ao mesmo resultado.

O caso do treinador de futebol

O treinador começou a apostar aos 16 anos, com apostas informais entre amigos em seu bairro em Nova York. Com 18, passou a frequentar cassinos e casas de apostas. Com dívidas crescentes, migrou para os mercados de previsão.

"Eu tinha uma dívida enorme e recebia um salário de US$ 2 mil na sexta-feira. No sábado ou domingo, não tinha mais nada. Não tinha dinheiro nem para encher o tanque do carro", contou o treinador, hoje com 21 anos. Ele também enfrentava empréstimos e cartões de crédito estourados.

Ele tentou se afastar das apostas esportivas, mas os mercados de previsão o atraíram de volta. "É como se fosse a mesma coisa, só que com outro nome", disse.