Demissões costumavam ser um sinal claro de problemas financeiros, capazes de derrubar o valor de uma empresa no mercado. Mas, recentemente, a Block anunciou cortes de pessoal e, para surpresa de muitos, suas ações subiram. Não foi um caso isolado: empresas como Snap, Meta e Amazon também relataram demissões nos últimos meses, todas elas citando a inteligência artificial (IA) como justificativa. Para executivos sob pressão de investidores, a fórmula parece clara: mencionar IA, reduzir quadro de funcionários e observar o reflexo positivo no preço das ações.

Como ex-CEO que já passou por demissões e atualmente atuo como consultor de RH e benefícios em empresas da lista Fortune 500, tenho observado essa tendência com preocupação. Aqui está o meu alerta: usar a IA como justificativa para demissões sem uma análise criteriosa pode trazer consequências negativas a longo prazo.

Nem todas as demissões 'impulsionadas pela IA' são realmente sobre IA

Dados recentes da Goldman Sachs revelam que apenas 11% dos clientes entrevistados admitiram cortar empregos devido à IA. Além disso, dados do LinkedIn indicam que a tecnologia ainda não está diretamente causando uma desaceleração significativa nas contratações. Muitas das demissões observadas em 2024 estão relacionadas a:

  • Contratações excessivas em 2021 e 2022;
  • Economia em desaceleração;
  • Redução na demanda dos consumidores;
  • Projetos fracassados ou mal alinhados com o mercado.

Porém, essas razões não soam tão convincentes em uma chamada de resultados quanto mencionar a IA. Como destacou o investidor Terrence Rohan em recente entrevista:

"Citar a IA torna a notícia mais atraente para a mídia e evita que a empresa seja vista como apenas mais um vilão cortando custos."

Hoje, é difícil distinguir quando a IA é a causa real das demissões e quando ela serve apenas como uma narrativa conveniente. O problema, no entanto, é que a história da demissão viaja mais longe do que o eventual aumento das ações.

O impacto real das demissões vai além dos números

Como alguém que já foi demitido e, atualmente, responde a um conselho de administração, entendo a pressão para tomar decisões difíceis. Mas a forma como essas decisões são comunicadas e executadas define o futuro da empresa — não apenas para os acionistas, mas também para os funcionários.

Para os funcionários demitidos

Perder o emprego não significa apenas a perda de um salário. Na maioria dos casos, envolve também:

  • Perda de seguro-saúde;
  • Perda de seguro de vida;
  • Interrupção de contribuições para a aposentadoria;
  • Perda de proteções contra invalidez;
  • Impacto na rotina diária, propósito pessoal e senso de comunidade.

Para os funcionários que permanecem

Eles observam atentamente quais equipes foram cortadas e quais projetos foram interrompidos. A insegurança toma conta, e a maneira como a empresa comunica a decisão — e trata os colegas demitidos — define o tom da cultura corporativa nos meses seguintes. A narrativa apresentada ao mercado também envia uma mensagem clara sobre o tipo de empresa que você é hoje e no futuro.

Portanto, líderes devem refletir cuidadosamente antes de usar a IA como justificativa para demissões. A transparência e a empatia devem guiar o processo, pois o impacto vai muito além dos balanços financeiros.