Da utopia ao pragmatismo: como o Green New Deal se transformou

Há oito anos, três palavras ganharam força no movimento ambientalista: Green New Deal. O termo, que misturava slogan popular e filosofia política, prometia uma agenda ambiciosa: criar empregos, promover justiça social e combater as mudanças climáticas por meio de investimentos públicos massivos, inspirados no New Deal dos anos 1930.

O conceito saiu de cartazes de protesto para os corredores do poder, influenciando políticas locais e nacionais. Progressistas pressionaram até mesmo o então candidato Joe Biden a incorporar planos climáticos em sua campanha para a eleição de 2020. O resultado foi o Inflation Reduction Act, lei que oferecia créditos fiscais verdes e incentivos — tornando-se a primeira política climática abrangente dos EUA.

No entanto, com a vitória de Donald Trump em 2024 e a revogação da lei por republicanos, os avanços democratas perderam força. A esquerda passou a repensar sua estratégia: o novo foco é a afordabilidade.

Populismo verde: a nova agenda climática dos trabalhadores

Nesta quarta-feira (14), o Climate and Community Institute, um think tank progressista, lançou uma proposta que prioriza o bolso do cidadão comum. Entre as medidas estão:

  • Tetos para taxas de seguro residencial;
  • Proibição de cortes de serviços essenciais como água e luz;
  • Transporte público gratuito;
  • Moratória na construção de data centers energivoros;
  • Regulação de empresas responsáveis pela crise climática e pelo aumento do custo de vida.

A estratégia, chamada de "agenda climática da classe trabalhadora", busca aliar redução de emissões de carbono a alívio imediato para famílias de baixa renda.

"Todos nós fomos inspirados pelo Green New Deal e pelo momento que ele representou. Mas hoje, política, sociedade e economia estão em um lugar radicalmente diferente." — Patrick Bigger, diretor de pesquisa do Climate and Community Institute

Por que a mudança de discurso?

Pesquisas mostram que o principal problema dos americanos hoje é pagar as contas. Alimentos, moradia e saúde estão mais caros — e muitas dessas despesas estão ligadas às mudanças climáticas. Ondas de calor destroem safras, eventos extremos elevam o preço da energia e seguros residenciais disparam.

Segundo análise do Brookings Institution, os impactos do aquecimento global — como custos com fumaça de incêndios e enchentes — já representam um gasto anual entre US$ 219 e US$ 571 por família.

Com a guerra no Oriente Médio elevando os preços de combustível e expondo a fragilidade energética dos EUA, a oportunidade para promover essa nova agenda se torna ainda mais clara, avalia Daniel Aldana Cohen, sociólogo da Universidade da Pensilvânia.

Lições aprendidas: o que deu errado?

Os idealizadores da proposta reconhecem que o Green New Deal carecia de vontade política, enquanto o Inflation Reduction Act demorou a trazer benefícios concretos para a classe trabalhadora. Agora, o discurso é outro: clima não é apenas sobre salvar o planeta, mas sobre sobreviver economicamente.

Fonte: Grist