A Câmara dos Estados Unidos tentou, na semana passada, estender por 18 meses as polêmicas poderes de vigilância da Seção 702 da Lei de Vigilância de Inteligência Estrangeira (FISA), mas duas votações não obtiveram sucesso. Em vez disso, os parlamentares aprovaram uma reautorização de apenas 10 dias, adiando a decisão para abril.

O presidente da Câmara, Mike Johnson (R-La.), apresentou, na quinta-feira, uma nova proposta para estender os poderes por três anos, incluindo uma cláusula que proíbe o uso da Seção 702 para alvos americanos. No entanto, críticos de ambos os lados do espectro político consideram a medida insuficiente e acusam a proposta de ser apenas uma manobra superficial.

Sob a Seção 702, agências de inteligência e forças de segurança dos EUA podem monitorar comunicações eletrônicas de alvos estrangeiros sem mandado. O problema, segundo especialistas, é que esses alvos muitas vezes se comunicam com cidadãos americanos, permitindo buscas indiretas em dados de residentes dos EUA sem garantias judiciais.

Críticos rejeitam proposta como 'maquiagem'

Organizações de defesa das liberdades civis há anos exigem que buscas envolvendo cidadãos americanos sejam submetidas a autorização judicial. No entanto, a proposta de Johnson não atende a essa demanda.

“No geral, é um projeto vazio, que não promove nenhuma reforma real.” — Jake Laperruque, diretor adjunto do projeto de segurança e vigilância do Center for Democracy and Technology

Kia Hamadanchy, conselheiro sênior de políticas da ACLU (União Americana pelas Liberdades Civis), também criticou a proposta:

“Ela não exige mandado nem qualquer processo judicial para buscas envolvendo cidadãos americanos. A principal ‘reforma’ apenas reafirma leis já existentes e ignora o cerne do problema: as buscas incidentais em comunicações de americanos nunca foram resultado de intenções deliberadas de alvejar cidadãos sob a Seção 702.”

Gene Schaerr, conselheiro-geral do Projeto para Privacidade e Responsabilidade de Vigilância (conservador), classificou a proposta como “fachada” e “engodo”.

Divisão entre parlamentares

Apesar das críticas, a proposta conquistou pelo menos um apoiador influente: o deputado Warren Davidson (R-Ohio), que havia apresentado uma emenda para proibir o governo de comprar dados de cidadãos de corretores terceiros. Davidson defendeu a medida como um avanço:

“Coletivamente, essas reformas oferecem proteções robustas à privacidade dos cidadãos americanos. O Congresso deve aprovar essa vitória e reautorizar a Seção 702. Depois, devemos começar a desmantelar o estado de vigilância desenfreado que cresceu sem controle durante essas discussões.”

No entanto, a proposta ainda enfrenta resistência, especialmente entre membros do Freedom Caucus (ala mais conservadora da Câmara) e poucos democratas apoiam o plano de Johnson.

O deputado Ted Lieu (D-Calif.) publicou em sua rede social que não confia no atual diretor do FBI, Kash Patel, para exercer os poderes da Seção 702 com responsabilidade.