Nos Estados Unidos, o número de suicídios entre jovens e adultos em situação de vulnerabilidade financeira tem chamado atenção de especialistas. Pesquisas indicam que desemprego, dívidas, moradia instável e insegurança alimentar aumentam significativamente o risco de tentativas de suicídio. No entanto, políticas públicas que aliviam a pressão econômica — como reajuste do salário mínimo, auxílio-alimentação e expansão de cobertura de saúde — estão diretamente ligadas à redução desses casos.
O peso invisível da pobreza na saúde mental
Rei Scott, 28 anos, estudante de Serviço Social na Capital University, em Columbus (Ohio), viveu na pele essa realidade. Durante a adolescência, sua família enfrentou extrema pobreza: moravam em carros, casas com vazamentos ou porões sem privacidade. A incerteza sobre onde dormir ou se teriam comida no dia seguinte era constante. Scott, que se identifica como pessoa transgênero e não-binária, tentou ligar para uma linha de apoio psicológico em um momento de desespero.
— O atendente ficou chocado quando contei sobre nossas condições — disse Scott. — Ele ofereceu palavras de conforto, mas o que eu precisava naquele momento era de dinheiro para pagar um aluguel ou consertar o carro. Não adianta ter alguém para ouvir se você não tem como comer ou onde dormir.
Scott não é um caso isolado. Segundo dados do CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA), pessoas com renda inferior a US$ 25 mil por ano têm três vezes mais chances de morrer por suicídio do que aquelas com renda acima de US$ 75 mil. A relação entre pobreza e saúde mental é clara: quando as necessidades básicas não são atendidas, o sofrimento psicológico se agrava.
Por que o sistema de prevenção falha?
Nos EUA, a prevenção ao suicídio é historicamente tratada como um problema médico, focado em terapia e medicação. Embora esses recursos sejam importantes, eles não resolvem as causas estruturais do problema. Especialistas argumentam que a abordagem precisa ser mais ampla.
— Precisamos ampliar nossa visão sobre saúde mental — afirmou Benjamin Miller, especialista em políticas de saúde mental e professor adjunto da Escola de Medicina da Universidade Stanford. — As intervenções de maior impacto podem não ser apenas linhas de apoio, mas políticas que reduzam a pobreza e a insegurança.
Miller destaca que países como a Finlândia e a Austrália já adotam medidas econômicas — como aumento do salário mínimo e programas de auxílio-alimentação — como parte de suas estratégias de prevenção ao suicídio. Nos EUA, porém, essas soluções ainda são pouco discutidas no debate público.
O que funciona além do consultório?
Para Scott, a solução não está apenas em terapias ou medicamentos, mas em políticas que garantam condições mínimas de sobrevivência. Ela cita como exemplo:
- Auxílio-alimentação ampliado: Programas como o SNAP (cupons de alimentação) ajudam famílias a evitar a fome, um fator de risco para depressão e ansiedade.
- Aumento do salário mínimo: Trabalhadores com salários dignos têm menos estresse financeiro e maior estabilidade emocional.
- Moradia acessível: A falta de um teto está diretamente ligada a crises de saúde mental, especialmente entre jovens LGBTQIA+.
- Cobertura de saúde expandida: Acesso a tratamentos psicológicos e psiquiátricos sem barreiras financeiras é fundamental.
— Se eu tivesse US$ 5 mil naquela época, talvez não estivesse aqui hoje — disse Scott. — Dinheiro não resolve tudo, mas tira um peso enorme das costas das pessoas.
Um chamado à ação
Embora linhas de apoio como o 988 (Suicide & Crisis Lifeline) sejam essenciais, especialistas defendem que o combate ao suicídio deve ir além do atendimento psicológico. Políticas públicas que reduzam a pobreza e a desigualdade são, na prática, uma forma de prevenção.
— Não podemos mais ignorar o papel da economia na saúde mental — concluiu Miller. — Se queremos salvar vidas, precisamos agir em múltiplas frentes.
— Quando você não tem comida na mesa ou um lugar para dormir, palavras de conforto não são suficientes. Precisamos de soluções reais.