A Nação Seminole de Oklahoma se tornou, no mês passado, a primeira comunidade indígena dos Estados Unidos a proibir permanentemente a construção de data centers em suas terras. A decisão veio após uma startup de tecnologia tentar convencer líderes tribais a assinar um acordo de confidencialidade e uma carta de intenções para instalar um centro de dados em território seminole. O Conselho Tribal rejeitou a proposta por unanimidade, com 24 votos a favor da moratória.
No entanto, os Seminole não são os únicos a enfrentar pressões de empresas de tecnologia. Em todo o país, desenvolvedores de data centers têm usado táticas questionáveis para impor suas instalações em terras indígenas, mesmo sem o consentimento das comunidades. Segundo Krystal Two Bulls, diretora-executiva da organização ambiental Honor the Earth — que apoiou os Seminole na defesa de seus direitos —, há entre 103 e 160 projetos de data centers de grande porte em análise para construção em terras nativas.
Estratégias enganosas: da energia renovável aos data centers
Uma das táticas mais comuns é o "bait-and-switch" (mudança de planos), em que empresas chegam prometendo instalar infraestrutura de energia renovável, como painéis solares, mas substituem o projeto por um data center no último momento. "Ouvimos relatos de nações indígenas que receberam propostas para instalação de energia solar, mas rapidamente o foco mudou para data centers de grande porte", afirmou Two Bulls em entrevista à Democracy Now. "Antes mesmo de discutir o projeto, pedem que os líderes assinem acordos de confidencialidade, o que os torna responsáveis perante as empresas, e não perante as comunidades que representam."
Falta de transparência e exploração de comunidades vulneráveis
Para ativistas e líderes tribais, muitos projetos sequer são identificados a tempo de serem contestados. "Frequentemente, só tomamos conhecimento desses empreendimentos quando vemos um comunicado à imprensa ou ouvimos rumores", explicou Two Bulls. As empresas de tecnologia veem nas comunidades indígenas alvos atraentes devido à abundância de recursos naturais, como água, e aos incentivos fiscais oferecidos. Além disso, séculos de marginalização e pobreza tornam essas regiões ainda mais vulneráveis a promessas de emprego e desenvolvimento econômico.
"Quando se trata de comunidades que vivem em extrema pobreza, a oferta de empregos é um atrativo forte", disse Two Bulls. "Somado a isso, há questões jurídicas complexas sobre terras indígenas, criando um ambiente propício para a instalação de data centers de grande porte."
Resistência organizada contra megacorporações
Diante do poder das gigantes da tecnologia, a única alternativa é a mobilização. Organizações como a Honor the Earth — que lançou a Coalizão Sem Data Centers em 2025 — têm pressionado políticos em todos os níveis a proteger as terras indígenas. "Precisamos nos organizar para barrar esses projetos antes que seja tarde demais", afirmou Two Bulls.