Meta acelera demissões e impõe IA agressiva, dizem funcionários
A estratégia de Mark Zuckerberg para transformar a Meta em uma empresa totalmente focada em IA está gerando um clima de exploração e desconfiança entre os funcionários. A companhia demitiu milhares de trabalhadores nos últimos meses e, aos que permaneceram, impôs metas agressivas de adoção de ferramentas de inteligência artificial — sob risco de prejuízos em avaliações de desempenho.
O objetivo declarado é que cada funcionário gerencie uma equipe de agentes de IA trabalhando em segundo plano, permitindo que uma única pessoa supervisione múltiplos projetos simultaneamente. A pressão por produtividade extrema, no entanto, tem levado muitos ao esgotamento profissional.
Vigilância invasiva e reação dos funcionários
O clima interno piorou após a Meta anunciar, em maio, um programa de rastreamento de atividades digitais em computadores de dezenas de milhares de funcionários. Segundo a empresa, a iniciativa teria como objetivo "ensinar modelos de IA a entender como as pessoas realizam tarefas cotidianas no computador".
Funcionários, no entanto, interpretaram a medida como uma violação de privacidade e uma forma de vigilância corporativa disfarçada. Em resposta, um gerente de engenharia questionou como poderia "optar por não participar" do programa. A resposta veio do próprio Andrew Bosworth, diretor de tecnologia da Meta:
"Não há opção de opt-out no seu laptop corporativo."
A declaração de Bosworth gerou uma enxurrada de reações negativas na plataforma interna da empresa, com mais de 100 emojis de surpresa e indignação enviados pelos funcionários, conforme relatado pelo The New York Times.
Outro funcionário criticou a postura da liderança: "Sua indiferença em relação às preocupações dos próprios funcionários é preocupante."
Bosworth, por sua vez, garantiu que os dados coletados são "fortemente controlados" e que não há "risco de vazamento".
Demissões em massa e investimento bilionário em IA
Dias depois do anúncio do rastreamento, a Meta confirmou a demissão de cerca de 8 mil funcionários, justificando que os cortes permitiriam à empresa "compensar outros investimentos". Segundo Janelle Gale, chefe de recursos humanos, esses recursos estão sendo direcionados para o desenvolvimento de IA.
Os números revelam a magnitude do comprometimento da Meta com a tecnologia: a empresa projeta gastar US$ 145 bilhões até o final de 2024, a maior parte destinada à construção de data centers e infraestrutura para IA.
Programas de treinamento forçado e resistência interna
Em março, a Meta realizou semanas de treinamento compulsório — intituladas "AI Transformation Weeks" — para ensinar funcionários a usar ferramentas de codificação por IA e agentes automatizados. Além disso, lançou um painel interno de monitoramento para acompanhar o uso dessas tecnologias pelos empregados.
O ambiente de trabalho, já tenso, tornou-se ainda mais hostil quando funcionários começaram a relatar que precisam construir agentes de IA para localizar outros agentes de IA dentro da empresa — uma prática que muitos descrevem como auto-sabotagem organizacional.
A situação reflete um paradoxo: enquanto a Meta se vende como líder na revolução da IA, seus próprios funcionários denunciam um modelo de gestão exploratório, desumanizado e insustentável.
Com a moral em queda livre e a pressão por adoção de IA aumentando, resta saber até quando a cultura corporativa da empresa conseguirá sustentar tamanha carga — e quais serão as consequências a longo prazo para sua reputação e inovação.