O presidente Donald Trump voltou a demonstrar seu desdém pela liberdade de expressão ao atacar, em menos de 48 horas, o comediante Jimmy Kimmel e o ex-diretor do FBI James Comey. Na semana passada, Trump afirmou que Kimmel, apresentador de um programa de TV, deveria ser demitido imediatamente por fazer uma piada considerada ofensiva. No dia seguinte, o Departamento de Justiça indiciou Comey por dois crimes federais após ele postar uma foto de conchas na areia formando a mensagem "86 47" — uma crítica velada ao presidente.
Essas ações consecutivas reforçam um padrão preocupante: Trump não apenas tolera críticas, como usa o poder da Presidência para retaliar quem o ofende. Embora presidentes anteriores também tenham enfrentado oposição, o atual mandatário se destaca por transformar suas ofensas em ações concretas contra jornalistas, artistas e ex-autoridades.
Kimmel e a piada que gerou reação
Durante um quadro do programa Jimmy Kimmel Live!, exibido em 23 de abril, o apresentador simulou ser o mestre de cerimônias do tradicional Jantar de Correspondentes da Casa Branca. Em tom irônico, ele declarou: "Nossa primeira-dama, Melania, está aqui. Tão linda. Senhora Trump, você tem um brilho como de uma viúva grávida". A brincadeira, embora questionável em termos de bom gosto, não ultrapassa os limites da liberdade de expressão garantidos pela Primeira Emenda.
Trump, no entanto, classificou a piada como uma "chamada desprezível à violência", uma alegação que não encontra respaldo na realidade. Dois dias depois, um homem tentou invadir o evento, mas não há relação comprovada entre o ato isolado e as palavras de Kimmel. Ainda assim, a pressão sobre a ABC, emissora do programa, foi imediata.
Em 2023, o então presidente da Comissão Federal de Comunicações (FCC), Brendan Carr, ameaçou emissoras com multas e até revogação de licenças caso não punissem Kimmel por comentários sobre o assassino de um ativista conservador. A rede atendeu ao pedido e suspendeu temporariamente o programa — exatamente o que Carr havia sugerido. No dia seguinte à reclamação de Trump sobre a piada da "viúva grávida", a FCC anunciou uma revisão antecipada das licenças de transmissão da ABC, supostamente por "discriminação ilegal".
Comey e o meme que virou caso de polícia
O Departamento de Justiça indiciou James Comey, ex-chefe do FBI, por postar uma imagem de conchas na areia que formavam a frase "86 47". A acusação alega que o termo, amplamente usado em camisetas e adesivos como crítica ao presidente, seria uma ameaça de morte — uma interpretação que ignora décadas de jurisprudência sobre liberdade de expressão.
O próprio procurador-geral interino, Todd Blanche, admitiu que a frase é "amplamente disseminada" sem que ninguém seja processado. Especialistas em direito constitucional destacam que o caso fere o precedente da Suprema Corte sobre "ameaças reais" (true threats), que exige intenção clara de incitar violência. Além disso, o termo "86" é comumente usado em gíria para significar "eliminar" ou "ignorar", não necessariamente matar.
Para advogados e ativistas, a perseguição a Comey é mais um exemplo de como Trump usa o sistema judicial para perseguir críticos. Desde o início de seu mandato, o ex-presidente já tentou deportar estudantes estrangeiros por escreverem artigos contra ele e ameaçou retirar verbas federais de universidades que não o apoiassem.
Padrão de repressão: Trump e a liberdade de expressão
Os episódios envolvendo Kimmel e Comey não são isolados. Eles se somam a uma lista crescente de ações que revelam uma estratégia clara: silenciar vozes dissidentes. Seja por meio de pressão sobre emissoras, processos judiciais ou retaliações políticas, Trump demonstra que não tolera críticas, mesmo aquelas protegidas pela Constituição.
Especialistas em direitos civis alertam que o uso do poder estatal para perseguir opositores mina os pilares da democracia. "Quando o governo persegue pessoas por expressarem opiniões impopulares, envia uma mensagem perigosa: que a liberdade de expressão só vale para quem apoia o governo", afirmou um professor de direito constitucional ouvido pela imprensa.
Enquanto Trump alega defender a liberdade de expressão, suas ações contam outra história. Ao tentar censurar Kimmel e processar Comey, ele não apenas contradiz suas próprias palavras, como coloca em risco direitos fundamentais garantidos pela Primeira Emenda.