A Auto Union, empresa que deu origem à atual Audi, foi pioneira em quebras de recorde de velocidade na década de 1930 com seus icônicos carros de corrida chamados Silver Arrows. A maioria desses veículos foi destruída após suas carreiras esportivas, mas a Audi decidiu recriar um dos modelos mais lendários: o Auto Union 'Lucca', um streamliner V-16 supercharged que estabeleceu um recorde em 1935.
O original atingiu uma velocidade média de 320 km/h em uma seção reta de uma estrada italiana, próxima à cidade de Lucca, a apenas 20 km de Pisa. Na ocasião, o piloto Hans Stuck — pai do também piloto Hans-Joachim Stuck — guiou o veículo, que foi apelidado pela imprensa da época de Rennlimousine (limusine de corrida). O feito representou uma vitória significativa para a Auto Union em sua disputa de velocidade contra a Daimler-Benz, cuja marca havia registrado 316 km/h meses antes.
O 'Lucca' também participou da quinta edição da International Avus Race, em Berlim, mas abandonou a prova devido a problemas de resfriamento. Após sua carreira esportiva, o destino do carro original tornou-se incerto, como era comum na época, quando muitos veículos eram sucateados ao ficarem obsoletos. Apenas alguns exemplares sobreviveram, incluindo dois restaurados na década de 1990.
Reconstrução fiel ao original
Sem um carro original para restauração, a Audi encarregou a oficina britânica Crosthwaite Gardiner — especializada em veículos históricos — de recriar o 'Lucca' do zero. A tarefa, que durou mais de três anos, envolveu a análise de fotografias e documentos da época fornecidos pela montadora. Todos os componentes foram fabricados manualmente, incluindo a carroceria aerodinâmica, que atingiu um coeficiente de arrasto de 0,43.
Entre as modificações solicitadas pela Audi, destaca-se a adaptação do sistema de ventilação projetado para a corrida de Berlim de 1935. Além disso, o motor foi atualizado: um V-16 supercharged de 6.0 litros, derivado do Auto Union Type C de 1936, que entregava impressionantes 512 cavalos de potência a 4.500 rpm. Para atingir essa potência, o motor utilizava uma mistura de combustível composta por 50% de metanol e 40% de outro componente, um detalhe técnico avançado para a época.
O projeto, concluído no início de 2026, resultou em uma réplica fiel ao original, que será apresentada ao público em breve. A iniciativa não apenas resgata um marco da história automobilística, mas também homenageia a herança da Audi como sucessora da Auto Union.