Cantor Fitzgerald e os direitos de reembolso de tarifas: o que se sabe
A empresa Cantor Fitzgerald, conhecida por ser custodiante de títulos do Tesouro norte-americano para stablecoins como Tether, teria oferecido comprar direitos de reembolso de tarifas por valores entre 20 e 30 centavos por dólar, segundo reportagem da WIRED em julho de 2025. A proposta fazia parte de um esquema de arbitragem, no qual a empresa compraria os direitos de importers que buscavam liquidez imediata, apostando que os tribunais declarariam as tarifas ilegais e, assim, receberiam o valor total.
A Cantor Fitzgerald negou as acusações, classificando-as como "absolutamente falsas". Em fevereiro de 2026, a empresa afirmou ter considerado o produto, mas decidiu não prosseguir. Um porta-voz declarou que a empresa "nunca executou transações ou assumiu riscos quanto à legalidade das tarifas".
Contexto: o programa de reembolsos da Receita Federal
Em fevereiro de 2026, a Suprema Corte dos EUA declarou que a Lei de Poderes de Emergência Internacional (IEEPA) não autorizava as tarifas impostas pelo governo Trump. Com isso, a Receita Federal (CBP) lançou o portal CAPE para processar reembolsos eletrônicos. Até 9 de abril de 2026, 56.497 importadores haviam registrado pedidos de reembolso totalizando US$ 127 bilhões, de um total estimado de US$ 166 bilhões. Os pagamentos válidos devem ser processados em até 60 a 90 dias.
Os direitos de reembolso, inicialmente precificados entre 20 e 30 centavos por dólar em meados de 2025, passaram a valer entre 55 e 75 centavos por dólar em abril de 2026, após o lançamento do portal CAPE. A valorização refletiu a maior segurança jurídica proporcionada pelo programa.
Conflito de interesses e a atuação de Howard Lutnick
Howard Lutnick, ex-CEO da Cantor Fitzgerald, ocupou posição estratégica durante o governo Trump. Ele apoiou publicamente as tarifas e aconselhou o ex-presidente a implementá-las, enquanto a Cantor explorava formas de lucrar com a eventual invalidação das mesmas tarifas, segundo a WIRED.
Para evitar conflitos de interesse, Lutnick transferiu suas ações da Cantor para trusts controlados por seus filhos adultos, chefiados por Brandon Lutnick, e concordou em abrir mão de todos os benefícios econômicos da Cantor, BGC e Newmark a partir de 16 de maio de 2025. No entanto, congressistas democratas, como os senadores Ron Wyden e Elizabeth Warren, argumentaram que a medida não foi suficiente. Em agosto de 2025, eles exigiram que a Cantor revelasse quantos acordos de reembolso haviam sido elaborados ou finalizados e se a empresa ou afiliadas eram contrapartes.
Em fevereiro de 2026, o deputado Jamie Raskin também se juntou ao coro, cobrando transparência sobre o envolvimento da Cantor no mercado de reembolsos.
Implicações e desdobramentos
A situação levanta questões sobre a ética na relação entre o setor privado e o governo, especialmente quando empresas com interesses comerciais influenciam ou se beneficiam de políticas públicas. A Cantor Fitzgerald, ao atuar como custodiante de reservas em títulos do Tesouro para stablecoins, mantém vínculos estreitos com o mercado de criptomoedas, adicionando complexidade ao debate.
Até o momento, não há registros públicos de acordos finalizados entre a Cantor e importadores para compra de direitos de reembolso. A empresa continua negando qualquer envolvimento nesse tipo de transação.
Pontos-chave:
- Cantor Fitzgerald negou ter comprado direitos de reembolso de tarifas por 20-30 centavos por dólar;
- O programa CAPE da Receita Federal já registrou US$ 127 bilhões em pedidos de reembolso;
- Howard Lutnick, ex-CEO da Cantor, atuou como conselheiro de política comercial do governo Trump;
- Congressistas exigem transparência sobre possíveis acordos da Cantor no mercado de reembolsos;
- Os direitos de reembolso valorizaram-se para 55-75 centavos por dólar após o lançamento do portal CAPE.