Em 2018, quando equipes de limpeza desobstruíram os bueiros entupidos de Nova Orleans, retiraram não apenas folhas e lama, mas também 46 toneladas de colares de contas do Carnaval. A quantidade impressionante de resíduos acumulados ao longo de décadas de festas chocou moradores e autoridades. "Depois de ouvir um número como esse, não tem como voltar atrás. Precisamos fazer melhor", declarou na época Dani Galloway, então diretora de Obras Públicas da cidade.
Quase uma década depois, o problema só piorou. Durante as cinco semanas do Carnaval 2024, equipes recolheram 1.363 toneladas de lixo — incluindo colares plásticos, latinhas de cerveja, copos descartáveis e outros detritos — ao longo das rotas dos desfiles. O volume representa um aumento de 24% em relação ao ano anterior e o maior registrado na história da festa. Para se ter uma ideia, equivale ao peso de 741 carros ou ao da embarcação Steamboat Natchez, ou ainda a mais de 1 milhão de bolos típicos da região.
Tradição insustentável
Jogar objetos dos carros alegóricos para a multidão — os chamados "throws" — é uma tradição centenária do Carnaval de Nova Orleans. No entanto, a maioria desses itens é feita de plástico barato e muitas vezes contém substâncias tóxicas, como chumbo em níveis perigosos.
"Ver o volume de lixo aumentar tanto é simplesmente absurdo", afirmou Brett Davis, fundador da Grounds Krewe, organização sem fins lucrativos que busca tornar o Carnaval mais sustentável por meio de reciclagem e redução de resíduos. Muitos dos objetos são jogados no chão logo após serem pegos, pisoteados e, por fim, varridos e levados para aterros sanitários.
Multidão não explica sozinha o recorde de lixo
Inicialmente, a prefeitura atribuiu o aumento do lixo ao maior público na festa de 2024, que durou de 6 de janeiro a 17 de fevereiro e contou com mais de 30 desfiles de carros alegóricos. Segundo a Downtown Development District, cerca de 2,2 milhões de pessoas visitaram o centro de Nova Orleans durante o período, um crescimento de 10% em relação a 2023.
"O aumento em relação ao ano passado esteve diretamente associado à maior presença de foliões", declarou Matt Torri, diretor de saneamento da cidade, em reunião com o Conselho Municipal em março. "Quem participou dos desfiles percebeu claramente que havia mais gente aproveitando o Carnaval, o que é ótimo para a cidade."
No entanto, uma análise da Verite News revelou que não há relação clara entre o número de participantes e a quantidade de lixo produzido. Nos últimos dez anos, os resíduos do Carnaval têm aumentado de forma constante, independentemente das flutuações anuais de público. Em 2020, por exemplo, a festa atraiu cerca de 2,4 milhões de pessoas, mas gerou 241 toneladas a menos de lixo do que em 2024.
Falta de soluções sustentáveis
Apesar dos alertas recorrentes, a cidade ainda não implementou medidas efetivas para reduzir o impacto ambiental da festa. Especialistas destacam a necessidade de substituir os colares plásticos por alternativas biodegradáveis e de criar campanhas de conscientização para que os foliões levem seus resíduos embora.
Enquanto isso, o lixo continua se acumulando. "O Carnaval é uma celebração maravilhosa, mas precisamos repensar como fazemos isso", disse Davis. "Não podemos continuar ignorando o custo ambiental da nossa tradição."