Combustível de aviação dispara e acende alerta para alternativas sustentáveis

A escalada do conflito no Irã tem pressionado os estoques globais de petróleo, impactando diretamente o setor aéreo. Enquanto o foco da mídia recai sobre o aumento do preço da gasolina — que ultrapassou US$ 4 o galão pela primeira vez em quatro anos —, o combustível de aviação (QAV) também sofre com a alta. Desde o início da guerra, os preços do QAV dobraram, segundo dados do setor.

Em março de 2024, as companhias aéreas dos EUA gastaram 56% a mais com combustível em comparação ao mês anterior, de acordo com a Bureau of Transportation Statistics. Esse cenário reforça a vulnerabilidade das empresas aéreas diante da dependência de fontes fósseis e acende um debate sobre a transição para soluções mais estáveis e sustentáveis.

Por que os combustíveis sustentáveis são essenciais para as companhias aéreas

Scott Kirby, CEO da United Airlines, há anos defende os combustíveis de aviação sustentável (SAF, na sigla em inglês) não apenas como uma medida ambiental, mas também como uma estratégia de redução de custos. "O combustível de aviação é nosso maior e mais volátil custo. E adivinhe o que aconteceu?", declarou em recente entrevista.

Kirby, conhecido por seu engajamento em causas climáticas, destaca que os SAFs oferecem três vantagens principais:

  • Redução de emissões: Os SAFs podem diminuir em até 80% as emissões de CO₂ em comparação ao querosene tradicional;
  • Segurança energética: Ao utilizar matérias-primas locais, como resíduos agrícolas ou óleos usados, as empresas reduzem a dependência de importações instáveis;
  • Estabilidade de preços: A produção localizada minimiza o impacto de crises geopolíticas no custo final do combustível.

Chris Cooper, CEO da XCF Global — empresa especializada em SAF —, reforça esse ponto: "Os SAFs não apenas apoiam a redução de emissões, mas também fortalecem a segurança energética e diminuem a exposição a choques externos".

Desafios na produção e adoção dos SAFs

Apesar dos benefícios, os SAFs ainda representam uma fatia mínima do consumo de combustível das companhias aéreas. A United Airlines, líder no uso de SAFs, investiu na produção de mais de 5 bilhões de galões do produto. No entanto, em dezembro de 2024, os SAFs correspondiam a apenas 0,3% do combustível utilizado pela empresa, conforme relatório de impacto da companhia.

Para acelerar a produção e adoção dos SAFs, Kirby aponta a necessidade de incentivos governamentais, semelhantes aos que impulsionaram a energia eólica e solar. A Inflation Reduction Act, aprovada durante o governo Biden, foi um passo importante, oferecendo créditos fiscais e subsídios para tornar os SAFs mais competitivos em relação ao querosene tradicional.

No entanto, a política energética nos EUA tem sofrido retrocessos. O projeto de lei One Big Beautiful Bill Act, proposto durante o governo Trump, reduziu pela metade os créditos fiscais para SAFs — de US$ 1,75 para US$ 1 por galão.

Incertezas políticas ameaçam metas climáticas do setor aéreo

A instabilidade política nos EUA e em outros países tem levado algumas companhias a recuar em suas metas de sustentabilidade. Em abril de 2024, a Delta Airlines removeu de seu site compromissos ambientais, incluindo a promessa de usar SAFs para 10% de seu combustível até 2030. A decisão segue uma tendência global: em 2024, a Air New Zealand também abandonou sua meta climática para 2030.

Kirby critica a falta de visão de longo prazo: "Muitas companhias estabeleceram metas ambiciosas para 2030, mas agora estão retrocedendo. Isso não apenas prejudica o meio ambiente, mas também expõe as empresas a riscos financeiros em um mercado cada vez mais volátil".

"Os SAFs não são apenas uma opção ambiental; são uma necessidade estratégica para o futuro da aviação. Sem eles, as companhias aéreas continuarão reféns das flutuações do mercado de petróleo." — Scott Kirby, CEO da United Airlines

O que o futuro reserva para os SAFs?

Apesar dos obstáculos, especialistas acreditam que a pressão dos custos e a urgência climática devem impulsionar a adoção dos SAFs nos próximos anos. A União Europeia, por exemplo, já estabeleceu metas obrigatórias para a mistura de SAFs no combustível de aviação até 2030.

Para que a transição ocorra em escala global, no entanto, será necessário:

  • Maior investimento em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias de produção;
  • Políticas públicas consistentes e de longo prazo, com incentivos financeiros estáveis;
  • Colaboração entre governos, empresas e instituições de pesquisa para viabilizar a produção em larga escala.

Enquanto isso, as companhias aéreas seguem monitorando de perto os preços do petróleo e buscando alternativas para mitigar os impactos da crise energética — e os SAFs surgem como a solução mais promissora.