Em um intervalo de apenas cinco semanas durante a primavera de 2024, quatro construtoras residenciais dos Estados Unidos foram adquiridas por empresas japonesas. Entre elas, a Tri Pointe Homes, uma das maiores do setor e de capital aberto. Segundo estimativas da ResiClub, após a conclusão dessas transações, as companhias japonesas passarão a controlar mais de 5,5% do mercado de construção de casas unifamiliares no país.
Esse movimento não é recente. De acordo com dados da Zonda, empresa especializada em análise de construção nova, em 2015 as construtoras japonesas detinham cerca de 0,2% desse mercado nos EUA. Em 2025, a participação já deve atingir 4,7%. A expansão acelerada reflete uma estratégia de longo prazo, impulsionada por fatores demográficos e estruturais.
Por que o Japão está investindo tanto nos EUA?
O principal motivo é a diferença demográfica entre os dois países. O Japão enfrenta um encolhimento populacional acelerado e um envelhecimento da população, o que limita o crescimento do mercado imobiliário doméstico e representa um risco para gigantes como Daiwa House, Sekisui House e Sumitomo Forestry.
Já nos Estados Unidos, a população continua crescendo, com formação de novos lares — especialmente nas regiões do Sun Belt, onde muitas das principais construtoras americanas atuam. Para as empresas japonesas, que buscam crescimento estável e de longo prazo, o mercado imobiliário americano oferece escala e melhores perspectivas demográficas.
Estratégia de aquisições e vantagens competitivas
Outro fator que favorece os investidores japoneses é a fragmentação do mercado de construção nos EUA. Embora haja grandes construtoras de capital aberto, o setor ainda é composto por inúmeras empresas regionais. Isso cria oportunidades para players globais bem capitalizados adquirirem operadoras locais, mantendo suas marcas e equipes de gestão.
Empresas como Sumitomo Forestry e Sekisui House afirmam priorizar operações lideradas localmente, com suporte de capital centralizado e expertise global. Essa estrutura permite preservar a cultura das construtoras adquiridas, ao mesmo tempo em que oferece recursos financeiros e operacionais para expansão.
Além disso, muitas conglomeradas japonesas têm acesso a taxas de juros mais baixas, o que lhes confere vantagem na aquisição de empresas no exterior. O Japão mantém taxas de juros extremamente baixas há décadas, em função de inflação persistentemente baixa e crescimento lento. Durante grande parte da última década, o Banco do Japão manteve as taxas de curto prazo próximas ou abaixo de zero.
"As construtoras japonesas trazem uma perspectiva de longo prazo para o mercado imobiliário dos EUA, moldada pelos desafios demográficos no Japão e pelas oportunidades no exterior. Sua crescente presença reflete confiança na demanda habitacional americana, incluindo projeções do Banco Mundial de mais de 25 anos de crescimento populacional doméstico. Os players japoneses não estão apenas injetando capital, mas também introduzindo novas abordagens de escala, eficiência e construção que podem transformar o setor ao longo do tempo."
— Ali Wolf, economista-chefe da Zonda
Principais aquisições recentes
- Sumitomo Forestry adquiriu a Tri Pointe Homes, construtora de capital aberto, por US$ 4,5 bilhões (13 de fevereiro de 2024).
- Daiwa House, por meio da Stanley Martin Homes, anunciou a compra da United Homes Group (23 de fevereiro de 2024).
- Iida Group Holdings, através da Hajime Construction, adquiriu participação majoritária na Wright Homes, construtora de Utah (10 de março de 2024).
- Trumark Homes, já controlada pela Daiwa House desde 2020, comprou a JK Monarch, construtora do mercado de Seattle (20 de março de 2024).