Em maio de 2025, durante a teleconferência de resultados da Strategy, o CEO Phong Le declarou publicamente que a empresa venderá Bitcoin quando for vantajoso para os acionistas. Michael Saylor, cofundador da empresa, complementou que a companhia provavelmente venderá parte de suas reservas para financiar dividendos, com o objetivo de proteger o mercado.
A Strategy detinha, até 3 de maio, 818.334 BTC, um aumento de 22% em relação ao início do ano, com valor de mercado estimado em US$ 64,14 bilhões. A declaração durante a teleconferência marcou a normalização da venda de Bitcoin como ferramenta de gestão financeira corporativa, além de estabelecer um novo paradigma quantitativo para decisões estratégicas.
Segundo a administração, quando o valor de mercado líquido ajustado (mNAV) da empresa estiver abaixo de 1,22x, vender Bitcoin e pagar dividendos pode ser mais benéfico do que emitir novas ações. Saylor argumentou que, mesmo com uma valorização anual de apenas 2,3% no preço do Bitcoin, a reserva atual da empresa poderia financiar dividendos indefinidamente. Caso o ativo não se valorize, a reserva ainda seria suficiente para manter os pagamentos por 43 anos.
Essa mudança de postura representa um afastamento do discurso anterior de 'nunca vender' Bitcoin, substituído por um modelo em que empresas buscam equilibrar suas operações por meio de vendas estratégicas quando necessário. Investidores, que antes viam essas empresas como proxies do Bitcoin devido à escassez e ao potencial de longo prazo, agora se deparam com uma realidade mais complexa e pragmática.
Bitcoin como liquidez operacional: casos recentes
Outras empresas seguem o mesmo caminho. A Sequans, por exemplo, registrou queda de 24,8% na receita do primeiro trimestre de 2025, chegando a US$ 6,1 milhões, além de prejuízo operacional de US$ 50,5 milhões. No período, a empresa realizou vendas de Bitcoin que resultaram em perdas líquidas de US$ 11,7 milhões, utilizando os recursos principalmente para quitar dívidas conversíveis e recomprar ações.
Até 31 de março, a Sequans possuía 1.514 BTC, dos quais 1.217 estavam vinculados como garantia a uma dívida conversível de US$ 66,2 milhões. Até 30 de abril, o saldo caiu para 1.114 BTC, com 817 BTC ainda como garantia para uma dívida de US$ 35,9 milhões, vencível até junho. Em novembro de 2024, a empresa já havia vendido 970 BTC para reduzir sua dívida conversível pela metade, de US$ 189 milhões para US$ 94,5 milhões.
Nesses casos, o Bitcoin deixa de ser apenas um ativo de reserva para se tornar uma liquidez operacional, especialmente quando a receita cai e as dívidas vencem. A estrutura de garantias vinculadas ao Bitcoin obriga as empresas a vender parte do ativo antes de qualquer decisão estratégica, priorizando o cumprimento de obrigações financeiras.
MARA segue o mesmo modelo em escala maior
A MARA aplicou a mesma lógica em março de 2025, vendendo 15.133 BTC por aproximadamente US$ 1,1 bilhão. Os recursos foram usados para recomprar notas conversíveis, reduzindo a dívida em cerca de 30% e gerando um ganho de aproximadamente US$ 88,1 milhões.
Essas movimentações refletem uma tendência crescente entre empresas que acumularam Bitcoin como reserva estratégica. Com a volatilidade do mercado e a necessidade de equilibrar finanças, vender parte do ativo tornou-se uma estratégia para garantir liquidez e reduzir riscos financeiros.