Surto de hantavírus em navio: entenda por que não é comparável à COVID-19

Um surto de vírus mortal a bordo de um navio de cruzeiro pode soar como um enredo familiar, mas, ao contrário da pandemia de COVID-19, as autoridades de saúde não antecipam uma nova crise global. A cepa Andes do hantavírus, identificada como responsável pelo surto, é a única conhecida por ser transmitida entre humanos — um detalhe que, embora raro, exige atenção imediata.

Três mortes foram confirmadas e vários outros passageiros adoeceram após o surto detectado em um navio que zarpou da Argentina no início do mês passado. Até o momento, a Organização Mundial da Saúde (OMS) registrou oito casos suspeitos ou confirmados relacionados ao navio. Autoridades dos Estados Unidos em pelo menos cinco estados monitoram sintomas de passageiros que retornaram, mas nenhum caso foi confirmado fora da embarcação, segundo reportagem do The Washington Post.

Autoridades descartam risco de nova pandemia

Em coletiva de imprensa na quinta-feira (15), Abdirahman Mahamud, diretor de Operações de Alerta e Resposta a Emergências de Saúde da OMS, afirmou que, seguindo medidas de saúde pública e lições da epidemia de hantavírus na Argentina em 2018, é possível interromper a cadeia de transmissão. No entanto, ele ressaltou a importância da colaboração transfronteiriça para rastrear e conter a disseminação do vírus.

Maria Van Kerkhove, diretora interina de Gerenciamento de Epidemias e Pandemias da OMS, foi categórica: "Isso não é COVID, não é influenza. A transmissão ocorre de forma muito diferente". Segundo especialistas, a propagação do hantavírus Andes está associada a contato próximo e prolongado, como entre membros da mesma casa, parceiros íntimos ou profissionais de saúde que atendem pacientes infectados.

Casos confirmados e medidas de contenção

Os três óbitos ocorreram entre passageiros do navio. Outros quatro ocupantes foram evacuados: um para a África do Sul e três para os Países Baixos, onde receberam tratamento médico. Um quinto caso, também em passageiro, foi confirmado na Suíça após o indivíduo procurar atendimento hospitalar após receber comunicação do navio sobre o surto. Além disso, uma comissária de bordo holandesa está sendo testada para hantavírus após ter contato com uma das vítimas pouco antes de seu falecimento.

A OMS alerta que, embora as infecções sejam raras, a taxa de letalidade na América pode chegar a 50%. No entanto, a entidade reforça que não há risco atual de disseminação em larga escala como ocorreu com a COVID-19. O período de incubação do vírus, que pode durar semanas, ainda representa um desafio para o rastreamento de casos.

Oportunidade para avanços científicos

Carlos del Rio, professor da Escola de Medicina da Universidade Emory, destacou em coletiva com a Sociedade Americana de Doenças Infecciosas que, mesmo com baixo risco, o surto oferece uma chance de aprofundar o conhecimento sobre o vírus. "Pesquisas para desenvolver vacinas e tratamentos são urgentemente necessárias", afirmou.

Nos Estados Unidos, a saída da OMS durante a administração Trump resultou em uma reestruturação do aparato de saúde pública, incluindo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) e os Institutos Nacionais de Saúde (NIH). Apesar disso, especialistas reforçam que a resposta coordenada e baseada em ciência é fundamental para evitar que surtos localizados se tornem crises globais.

"Isso não é COVID, não é influenza. A transmissão ocorre de forma muito diferente."
— Maria Van Kerkhove, diretora interina de Gerenciamento de Epidemias e Pandemias da OMS

O que é o hantavírus Andes?

  • Transmissão: Principalmente por inalação de aerossóis de fezes, urina ou saliva de roedores infectados. Em casos raros, pode ocorrer transmissão entre humanos por contato próximo e prolongado.
  • Sintomas: Febre, dores musculares, calafrios e dificuldade respiratória. Casos graves podem evoluir para síndrome pulmonar por hantavírus (SPH), com alta letalidade.
  • Tratamento: Não há vacina ou cura específica. O tratamento é de suporte, com oxigenoterapia em casos graves.
  • Prevenção: Evitar contato com roedores e suas excretas, usar máscaras em áreas potencialmente contaminadas e adotar medidas de higiene rigorosas.
Fonte: Axios