O senso comum diz que, com o aquecimento global, as linhas de árvores — o limite superior onde as árvores conseguem sobreviver — avançam para altitudes mais elevadas. Regiões antes frias demais agora oferecem temperaturas mais amigáveis ao crescimento vegetal, permitindo que as florestas se expandam. Imagens históricas de parques nacionais no Canadá e nos Estados Unidos, como o Waterton Lakes e o Glacier National Park, parecem confirmar essa tendência. Comparações entre fotos de 1913 e 2007, ou de 1912 e 2009, mostram claramente o recuo de geleiras e a ascensão das árvores.

No entanto, um estudo recente publicado na International Journal of Applied Earth Observation and Geoinformation apresenta um cenário mais complexo. Entre 2000 e 2020, 42% das linhas de árvores analisadas subiram, mas 25% recuaram. A descoberta surpreendeu os pesquisadores liderados pela ecologista Sabine Rumpf, da Universidade de Basel, na Suíça.

“Muitos estudos sobre migração de linhas de árvores se concentram em regiões específicas, como América do Norte, Europa e Himalaia, onde há mais recursos para pesquisas de campo”, explica Rumpf. “Isso deixa grandes porções do planeta subestudadas.” Para preencher essa lacuna, a equipe utilizou dados de sensoriamento remoto, que permitem uma análise global mesmo em áreas remotas ou de difícil acesso.

Como o estudo foi conduzido

A pesquisa utilizou um mapa global de montanhas, desenvolvido em 2018 com resolução de 250 metros. Foram excluídas células com menos de 10% de cobertura de alta montanha (onde não há árvores suficientes para formar uma linha clara) e aquelas com mais de 95% de cobertura florestal (onde a linha superior é menos definida).

Os pesquisadores definiram a “linha de árvores observada” como o limite superior de árvores com pelo menos 3 metros de altura. Além disso, desenvolveram um modelo para calcular a linha potencial de árvores em cada região, considerando fatores como a duração da estação de crescimento e a temperatura média durante esse período.

Segundo o modelo, uma célula poderia abrigar árvores se tivesse uma estação de crescimento de 94 dias ou mais e temperatura média de 6,4°C ou superior durante esse período. Células que não atendessem a esses critérios foram consideradas incapazes de sustentar florestas, ou seja, acima da linha potencial de árvores.

Por que algumas linhas de árvores recuam?

A migração das linhas de árvores não segue um padrão uniforme. Enquanto o aquecimento global favorece o avanço em muitas regiões, outros fatores podem causar o recuo, como:

  • Mudanças nos padrões de precipitação: Secas prolongadas ou redução de chuvas podem limitar o crescimento das árvores, mesmo em temperaturas mais altas.
  • Distúrbios naturais: Incêndios florestais, deslizamentos de terra ou surtos de pragas podem destruir áreas antes propícias ao crescimento de árvores.
  • Atividade humana: Desmatamento, expansão agrícola ou urbanização em regiões montanhosas podem interromper a migração natural das florestas.
  • Limitações ecológicas: Algumas espécies de árvores têm dificuldade para se adaptar rapidamente às mudanças climáticas, mesmo quando as condições parecem favoráveis.

“Onde as árvores podem sobreviver nem sempre é onde elas estão atualmente”, destaca Rumpf. “Fatores como competição por recursos, doenças ou barreiras físicas podem impedir que as florestas avancem, mesmo em climas mais quentes.”

Implicações para o futuro

Os resultados do estudo reforçam a necessidade de abordagens globais e integradas para entender as mudanças nas linhas de árvores. Enquanto o aquecimento global continua a ser um dos principais impulsionadores da migração, os padrões observados mostram que a realidade é mais dinâmica e menos previsível do que se imaginava.

Para os cientistas, isso significa que políticas de conservação e reflorestamento devem levar em conta não apenas o avanço das florestas, mas também os riscos de recuo em sub-regiões específicas. “Precisamos de mais dados e pesquisas em áreas pouco estudadas, como as montanhas da América do Sul, África e partes da Ásia”, conclui Rumpf.