Um ‘zipper’ geológico que pode dividir a África
Há cerca de 45 milhões de anos, a porção oriental da placa continental africana começou a se afastar lentamente. Como um imenso zíper que se estende do Mar Vermelho até Moçambique, o Sistema de Rift da África Oriental (EARS) está gradualmente criando uma nova crosta oceânica. Embora a maioria das fraturas desse sistema ainda esteja ‘fechada’, a região de Afar, no norte da Etiópia, já iniciou o processo de separação, podendo formar uma futura bacia oceânica.
Até recentemente, os modelos geológicos sugeriam que o ‘deszipperamento’ ocorreria de norte para sul. No entanto, um estudo recente revelou que uma área no centro do sistema, próxima ao Lago Turkana, no Quênia, está prestes a se dividir. Dados sísmicos de alta resolução indicam que a crosta nessa região tem apenas 13 km de espessura, sinalizando que ela entrou na fase de ‘afinamento’ — um estágio crítico antes da ruptura definitiva.
As três fases da separação continental
O processo de rifting (ou separação de placas tectônicas) ocorre em três etapas:
- Estiramento: A crosta terrestre se alonga, criando tensões.
- Afinação (necking): A crosta se afina rapidamente, como um chiclete esticado.
- Oceanização: Magma ascende do manto, formando nova crosta oceânica e dividindo a placa continental.
Segundo a geofísica Anne Bécel, da Universidade Columbia, o EARS é um dos poucos locais do planeta onde é possível observar esse fenômeno em andamento. "Esta é uma das regiões únicas da Terra onde podemos estudar como os continentes se separam", afirmou. Os achados, publicados na revista Nature Communications em abril, ajudam a entender não apenas a evolução do continente africano, mas também processos semelhantes em dorsais meso-oceânicas.
O mistério do Lago Turkana
A região do Turkana, no norte do Quênia, é um ponto crítico de junção tripla — onde três placas tectônicas se encontram. Além de sua importância geológica, a área abriga um dos registros fósseis mais antigos de hominídeos, com cerca de 4 milhões de anos. Estudos anteriores já haviam detectado que o manto superior (Moho) nessa bacia é excepcionalmente raso: apenas 20 km de profundidade, contra os 39 km típicos em outras regiões.
"O Turkana Rift Zone está se comportando de maneira diferente de outras áreas do sistema de rift. Sua espessura crustal reduzida e a presença de sedimentos inclinados do Mioceno Superior sugerem que a ruptura está em um estágio avançado."
Por que essa descoberta é importante?
Nem todas as fraturas continentais chegam a se separar completamente. Algumas permanecem no estágio de estiramento, com crostas superiores a 20 km de espessura. No entanto, regiões como Afar e o Mar Vermelho já estão na fase final de oceanização, onde o magma está formando nova crosta oceânica.
O estudo do Turkana oferece uma oportunidade única para os cientistas observarem um processo que, em sua maioria, ocorre no fundo dos oceanos. "Compreender como os continentes se dividem nos ajuda a transpor esse conhecimento para as dorsais meso-oceânicas, onde as placas oceânicas se afastam", explicou Bécel.
Embora a ruptura completa possa levar milhões de anos, a região do Lago Turkana já fornece pistas valiosas sobre os mecanismos por trás da formação de novos oceanos — um fenômeno que moldará o futuro geológico da África e do planeta.