A crise dos opioides parece estar chegando a um desfecho irônico. Enquanto a família Sackler negociava o pagamento de um acordo de US$ 6,5 bilhões por seu papel na produção de opioides pela Purdue Pharma, Joss Sackler — esposa de David Sackler, ex-membro do conselho da empresa — admitiu ter desenvolvido dependência dos medicamentos viciantes.

A revelação foi feita pelo Bloomberg, que também informou que Sackler se declarou culpada por obstruir investigação de um grande júri federal em 2024. Ela foi flagrada ao receber um carregamento ilegal de medicamentos controlados e tentou apagar mensagens no WhatsApp que a incriminavam como destinatária do envio. O ato resultou em uma acusação de crime federal.

Em depoimento ao tribunal na quarta-feira, Sackler declarou:

"Sinto muito por, em meio ao meu sofrimento com a dependência, ter tomado essas más decisões. Sou grata pelo tratamento médico que recebi para me recuperar."

Embora enfrente uma pena máxima de 20 anos de prisão, especialistas acreditam que sua condenação será consideravelmente menor, segundo o Bloomberg. Seu advogado, Walter Norkin, tentou dissociar o caso do envolvimento da família no epidemia de opioides, afirmando que o episódio "não tem relação alguma com a Purdue Pharma ou qualquer outro membro da família".

O papel da família Sackler na crise dos opioides

Apesar da admissão de Joss Sackler, a crise dos opioides nos Estados Unidos transcende a responsabilidade de uma única família — por mais poderosa e rica que seja. Pesquisa publicada em 2022 pelos economistas Anne Case e Angus Deaton, da Universidade de Princeton, apontou que o aumento das mortes por drogas no país está ligado a décadas de declínio nas oportunidades econômicas para trabalhadores com baixa escolaridade.

Empresas americanas aproveitaram essa vulnerabilidade. Durante os anos 1990 e início dos 2000, grandes redes de farmácias, como CVS, Walgreens e Walmart, promoveram o uso de opioides entre adultos da classe trabalhadora. Elas o fizeram por meio de campanhas que minimizavam os riscos de dependência, lobby junto a órgãos governamentais e parcerias com médicos que prescreviam altas doses de opioides.

Em 2021, um júri em Cleveland concluiu que essas empresas contribuíram para a crise de saúde pública ao não fiscalizarem adequadamente as prescrições de opioides — uma falha ética que, coincidentemente, gerou lucros bilionários.

A impunidade da família Sackler

Apesar do papel central da Purdue Pharma na epidemia, a família Sackler conseguiu se proteger. Até agora, nenhum membro foi condenado à prisão, e a maioria das ações civis relacionadas ao caso foi resolvida por acordos financeiros. Embora a Purdue Pharma tenha sido fechada recentemente após um acordo de US$ 7,4 bilhões, alguns Sacklers ainda ocupam cargos na Mundipharma, um consórcio internacional de medicamentos, levantando dúvidas sobre quanto de sua fortuna permanece no exterior.

Enquanto isso, Joss Sackler enfrenta as consequências de seus atos. Sua história reforça a complexidade de uma crise que já ceifou mais de 800 mil vidas nos EUA e expõe as falhas de um sistema que permitiu a disseminação desenfreada de opioides.

Fonte: Futurism