O navio de expedição MV Hondius, que partiu de Ushuaia, na Argentina, em abril com 147 passageiros e tripulantes rumo a destinos remotos como a Antártida, teve sua viagem interrompida após um surto de hantavírus. Três pessoas morreram e várias outras foram infectadas pela doença, que tem origem em roedores.
Os hantavírus são uma família antiga de patógenos transmitidos por roedores, capazes de causar doenças em humanos há séculos. A infecção ocorre principalmente pela inalação de poeira contaminada com fezes ou urina de ratos e camundongos. O hantavírus Andes, cepa identificada no surto do MV Hondius, é uma das poucas variantes que podem provocar a síndrome pulmonar por hantavírus, uma doença rara, mas muitas vezes fatal.
O que torna esse caso ainda mais preocupante é o fato de o hantavírus Andes ser a única cepa conhecida capaz de ser transmitida entre humanos. Isso transformou um surto inicialmente local em uma emergência multinacional, poucos anos após a pandemia de COVID-19 expor as fragilidades das respostas globais a doenças infecciosas.
Embora o hantavírus Andes seja altamente letal, sua transmissibilidade ainda é menor que a do SARS-CoV-2. No entanto, o episódio evidencia os desafios de combater surtos em um cenário de cooperação internacional cada vez mais fragmentada. Um mês antes dos primeiros casos no MV Hondius, a Argentina havia se retirado oficialmente da Organização Mundial da Saúde (OMS), seguindo os passos dos Estados Unidos, que também deixou a aliança global de saúde.
Mudanças climáticas e o aumento do hantavírus
Outro fator agravante é a relação entre o surto e as mudanças climáticas. Especialistas apontam que alterações nos padrões de chuva, vegetação e habitat estão influenciando a população de roedores — e, consequentemente, a disseminação de patógenos como o hantavírus.
Embora o período de incubação da doença seja de uma a seis semanas, o que dificulta a identificação da origem exata do surto, uma hipótese é que a expedição de observação de aves próxima a Ushuaia, cidade argentina conhecida por seu lixão que atrai roedores, tenha contribuído para a contaminação. Autoridades sanitárias argentinas já registraram um aumento significativo nos casos de hantavírus nesta temporada: 101 infecções desde junho de 2025, quase o dobro do mesmo período do ano anterior.
Ainda não há uma conclusão definitiva sobre a causa do crescimento, mas pesquisas sugerem que as mudanças climáticas podem estar por trás disso. Entre 2021 e 2024, a América do Sul enfrentou anos de seca extrema, incluindo a pior estiagem da Argentina em mais de 60 anos, em 2023, seguida por chuvas intensas no ano seguinte. Esses extremos climáticos, agravados pelo aquecimento global, alteram o comportamento dos roedores, segundo Kirk Douglas, cientista sênior que estuda hantavírus e mudanças climáticas na Universidade das Índias Ocidentais, em Barbados.
"Secas prolongadas forçam ratos e camundongos a migrarem para áreas povoadas em busca de alimento, aumentando o contato com humanos e, consequentemente, o risco de transmissão de doenças."
O surto no MV Hondius serve como um alerta para os riscos crescentes de doenças infecciosas em um mundo cada vez mais afetado pelas mudanças climáticas. Com a cooperação internacional em saúde pública enfraquecida e a probabilidade de novas pandemias aumentando, a prevenção e o monitoramento de surtos como esse tornam-se ainda mais urgentes.