O apelo das exchanges de cripto ao mercado público
Após os IPOs bem-sucedidos da Circle e da Bullish em 2025, diversas exchanges de criptomoedas correram para abrir capital na bolsa, prometendo que o setor finalmente havia amadurecido o suficiente para atrair investidores institucionais. Essas empresas contrataram banqueiros de Wall Street, nomearam executivos de compliance e ajustaram seus discursos para destacar plataformas regulamentadas, fluxos institucionais recorrentes e receitas diversificadas capazes de sobreviver a mercados em baixa.
O elo invisível com o Bitcoin
Porém, uma análise da Kaiko desmistifica essa narrativa. Segundo o estudo, a atividade de trading, o apetite dos investidores e as avaliações no mercado público ainda estão diretamente ligadas ao preço do Bitcoin — algo que muitas exchanges tentam esconder. Quando o Bitcoin sobe, o volume de negociações dispara, as avaliações das empresas disparam e Wall Street premia o setor com generosidade. Quando o Bitcoin estagna ou cai, as receitas das exchanges encolhem rapidamente, e a promessa de infraestrutura financeira perde força.
A grande questão para quem investe em IPOs de cripto em 2026 é: essas empresas conseguem gerar lucros sustentáveis quando o Bitcoin não colabora?
2025: o ano em que as exchanges voltaram a abrir capital
Para entender por que tantas exchanges estão correndo para abrir capital agora, é preciso relembrar como foi positivo o ano de 2025. A Circle realizou um IPO superdimensionado em junho, precificando suas ações a US$ 31 e levantando US$ 1,05 bilhão, com uma valuation de aproximadamente US$ 8 bilhões. Suas ações dispararam na estreia na NYSE, enviando um sinal claro: investidores institucionais estavam dispostos a assumir exposição regulamentada ao mercado de cripto, mesmo com avaliações elevadas.
A Bullish seguiu o mesmo caminho em agosto, precificando suas ações acima da faixa inicial (US$ 37), levantando mais de US$ 1,1 bilhão e estreando com uma valuation de quase US$ 13,2 bilhões. Os banqueiros tinham um argumento sólido: a regulação estava melhorando, a participação institucional estava crescendo, e as empresas de cripto não eram mais startups marginais como no ciclo anterior.
A empolgação era real, e os números por trás dela também. No entanto, o que esse boom ocultava era uma questão estrutural que os mercados de IPO costumam adiar até a temporada de balanços revelar a verdade: uma exchange consegue manter suas receitas quando o ativo que movimenta todo o seu negócio decide ficar estagnado?
O caso emblemático da Gemini
A resposta veio com a própria Gemini. Em setembro de 2025, os irmãos Winklevoss elevaram a faixa de preço do IPO da exchange e miraram uma valuation de até US$ 3,08 bilhões, refletindo a forte demanda durante o rali do Bitcoin. No entanto, já em 2026, uma ação judicial de acionistas alegou que investidores foram induzidos a erro durante o período do IPO: a empresa anunciou cortes de 25% no quadro de funcionários, saída de mercados e previsão de prejuízos anuais significativos, com as ações despencando mais de 75% em relação ao preço de estreia de US$ 28.
Como reportado pela CryptoSlate na época, a Gemini já havia divulgado um prejuízo líquido de US$ 282,5 milhões apenas no primeiro semestre de 2025. O caso mostrou como uma empresa pode passar de um IPO super subscrito para uma crise em questão de meses, dependendo da volatilidade do Bitcoin.
O que esperar dos IPOs de cripto em 2026?
O setor de criptomoedas enfrenta um paradoxo: quanto mais as exchanges se aproximam do modelo tradicional de Wall Street, mais dependentes elas permanecem do ciclo de preços do Bitcoin. Enquanto o mercado continuar atrelado à principal criptomoeda, os riscos para investidores em IPOs de exchanges permanecem altos. A pergunta que fica é: essas empresas conseguem construir modelos de negócios resilientes o suficiente para sobreviver — e prosperar — mesmo quando o Bitcoin não está em alta?
"O sucesso dos IPOs de cripto em 2025 foi impulsionado pela alta do Bitcoin, mas a sustentabilidade dessas empresas depende de algo além da volatilidade: receitas diversificadas e adoção real de seus serviços."