Um novo estudo publicado na revista Communications Psychology revelou que traços de personalidade e experiências externas, como a pandemia de COVID-19, podem moldar o conteúdo dos nossos sonhos. A pesquisa, liderada pela cientista Valentina Elce, da IMT School for Advanced Studies Lucca, analisou mais de 3.700 relatos de sonhos de 207 participantes entre 2020 e 2024, além de 80 pessoas que registraram seus sonhos durante o início da pandemia, em abril e maio de 2020.

Os resultados indicam que eventos emocionalmente significativos, como o isolamento social, aumentaram as referências a limitações e a intensidade emocional nos sonhos. Esses efeitos, segundo os pesquisadores, foram se normalizando gradualmente ao longo dos anos seguintes.

Personalidade e a bizarrice dos sonhos

Os participantes foram avaliados quanto a traços psicológicos, cognitivos, demográficos e padrões de sono. Eles registravam seus sonhos logo ao acordar, descrevendo elementos como bizarrice, vividez, tom emocional e nível de controle sobre os eventos oníricos. Além disso, relatavam suas experiências durante o dia.

Através de modelos de processamento de linguagem natural, os cientistas analisaram a estrutura semântica dos relatos e identificaram correlações entre traços individuais e experiências nos sonhos. Um dos achados mais relevantes foi que pessoas com tendência a divagar mentalmente durante a vigília tinham sonhos mais estranhos e com mudanças frequentes de cenário.

"Nossos resultados sugerem que a bizarrice dos sonhos está associada a uma maior propensão ao devaneio, que também impulsiona mudanças frequentes na narrativa onírica. Isso reforça a ideia de que sonhar e divagar mentalmente podem compartilhar bases neurais e cognitivas semelhantes."

Impacto da pandemia nos sonhos

A segunda parte do estudo analisou 80 participantes (60 mulheres e 20 homens) que registraram seus sonhos durante a primavera de 2020, no início da pandemia. Comparando com o grupo principal, os pesquisadores concluíram que eventos externos emocionalmente intensos, como a COVID-19, podem alterar significativamente as experiências oníricas e como esses efeitos se desenvolvem ao longo do tempo.

Segundo os autores, "esses achados demonstram que traços estáveis de personalidade e experiências pontuais moldam, em conjunto, a semântica dos sonhos". A pesquisa oferece novas perspectivas sobre como fatores internos e externos interagem para influenciar um dos fenômenos mais misteriosos da mente humana.