A dissolução abrupta da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), em 2025, durante o segundo mandato de Donald Trump, está diretamente relacionada ao aumento da violência em países africanos que dependiam de sua ajuda humanitária, segundo um estudo publicado na revista Science.
O fechamento da agência, que até então era a maior doadora humanitária do mundo, foi anunciado por Elon Musk, então chefe do Departamento de Eficiência Governamental (DOGE). Musk declarou que sua equipe havia "destruído" a USAID em fevereiro de 2025. Modelos de projeção indicam que o colapso da agência já pode ter causado 762 mil mortes evitáveis, das quais 500 mil eram crianças, e que o número poderia ultrapassar 9 milhões até 2030, conforme estudo divulgado em fevereiro de 2026.
Agora, uma nova pesquisa apresenta as primeiras evidências do impacto dos cortes da USAID sobre a incidência de violência. O estudo conclui que as reduções radicais levaram a um aumento nos conflitos nas regiões que mais recebiam ajuda dos EUA.
"Descobrimos que, com o fechamento da USAID, houve um rápido aumento na probabilidade, severidade e letalidade da violência em quase mil unidades administrativas subnacionais da África", afirmou Austin L. Wright, coautor do estudo e professor associado da Escola Harris de Políticas Públicas da Universidade de Chicago, em entrevista à 404 Media.
Nas regiões que recebiam maior apoio da USAID, os cortes foram associados a uma probabilidade 6,5% maior de qualquer evento de conflito, em comparação com áreas que não recebiam ajuda. Para ilustrar o impacto devastador dessa estatística, o estudo destaca:
- Aumento de 10% na probabilidade de protestos e tumultos;
- Crescimento de 10,6% no número de eventos de conflito;
- Elevação de 6,9% no número de batalhas registradas;
- Aumento de 9,3% nas mortes relacionadas a conflitos.
Análises de eventos confirmaram que não havia diferenças prévias nas tendências de conflito entre regiões de alta e baixa exposição antes do fechamento da agência. Os efeitos são semelhantes em magnitude, com um aumento relativo de 12,3% no número total de eventos de conflito.
Entre 2021 e 2024, a USAID teria salvo cerca de 91 milhões de vidas, cerca de um terço delas crianças menores de 5 anos. Criada por John F. Kennedy em 1961, a agência representava menos de 1% do orçamento federal dos EUA antes de seu fechamento.
O impacto da ajuda internacional em comunidades é complexo e depende do contexto. Enquanto em alguns casos a assistência pode reduzir conflitos ao mitigar os custos de oportunidade da violência — conhecido como "efeito custo de oportunidade" —, em outros, ela pode aumentar disputas pela distribuição de recursos, fenômeno chamado de "efeito rapacidade".
No entanto, o colapso da USAID, sem precedentes em escala e velocidade, teria produzido o pior cenário possível, combinando os efeitos negativos de ambos os mecanismos, segundo o estudo.