Suprema Corte dos EUA julgará caso histórico sobre mandados geofence
A Suprema Corte dos Estados Unidos ouvirá argumentos orais na próxima segunda-feira em um caso que pode limitar a capacidade do governo de obter dados digitais em massa de usuários de dispositivos com um único mandado. Trata-se de uma rara ocasião em que os principais juízes do país abordam direitos digitais.
Chatrie v. Estados Unidos é o primeiro grande caso da Quarta Emenda analisado pela corte desde 2018, apesar da crescente proliferação de tecnologias que impactam a privacidade desde então. O foco da discussão são os chamados mandados geofence, que obrigam empresas a revelar dados de usuários em determinada localização e período.
“É uma questão muito interessante sobre uma ferramenta de aplicação da lei que seria impensável há algumas décadas. Basicamente, você pode analisar potencialmente todos os celulares que passaram por uma área específica em um determinado intervalo de tempo.”
Divisão entre conservadores e liberais
Tanto defensores de liberdades civis de direita quanto de esquerda apoiam o peticionário, deixando o governo federal com poucos aliados em amici curiae. Okello Chatrie foi condenado por roubo a banco em 2019 após a polícia usar um mandado geofence para obter informações do Google sobre usuários em uma área de 17,5 acres durante uma hora, refinando posteriormente a busca.
Preocupações políticas e judiciais
No Congresso, democratas expressam preocupações sobre o uso de mandados geofence em relação a direitos reprodutivos, enquanto republicanos levantam questões sobre seu uso no rastreamento de suspeitos ligados à invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021. Os tribunais estão divididos sobre a legalidade do mandado geofence no caso de Chatrie.
O Google parou de armazenar dados de localização na nuvem e passou a manter registros diretamente nos dispositivos dos usuários. No entanto, aqueles que apoiam Chatrie argumentam que a decisão pode ter implicações mais amplas para registros financeiros, histórico de buscas e dados de chatbots.
“Acreditamos que é importante que os tribunais acertem essa questão e reconheçam que temos um interesse de propriedade em muitos de nossos registros digitais. Se o governo puder obter esses registros digitais sem um mandado, isso torna a Quarta Emenda praticamente vazia, e não temos segurança em nossa privacidade e direitos tradicionais de controle sobre nossos papéis e efeitos privados.”
Argumentos do governo e aliados
O governo dos EUA argumentou que Chatrie optou por permitir que o Google armazenasse seu histórico de localização, e que a coleta de dados não é substancialmente diferente da identificação de outros rastros, como marcas de pneus ou pegadas. Em um documento, afirmou:
“Indivíduos geralmente não têm expectativa razoável de privacidade em informações divulgadas a terceiros e posteriormente repassadas ao governo.”
Um grupo de 32 procuradores-gerais estaduais e alguns professores de direito apoiam o governo federal. No caso Carpenter v. Estados Unidos (2018), a Suprema Corte limitou a aplicação da “doutrina de terceiros” — argumento também usado pelo governo no caso Chatrie.
Impacto potencial da decisão
A decisão da Suprema Corte poderá redefinir os limites da vigilância digital nos EUA, afetando diretamente a privacidade dos cidadãos e os poderes de investigação do governo. Advogados e ativistas aguardam o veredito, que deve estabelecer precedentes para futuros casos envolvendo tecnologia e direitos constitucionais.