A nona semana de um conflito que, segundo promessas iniciais, duraria apenas duas ou três semanas já ultrapassa dois meses. Enquanto a mídia e analistas debatem estratégias momentâneas — como o controle do Estreito de Ormuz ou a possibilidade de um cessar-fogo —, poucos se detêm para analisar as raízes do problema.

Por trás da retórica belicosa e das decisões controversas de Donald Trump, está uma sequência de ações que transformou uma crise evitável em um conflito prolongado e perigoso. A decisão mais crítica, sem dúvida, foi a retirada unilateral dos Estados Unidos do Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA), acordo nuclear negociado por Barack Obama e outras cinco potências mundiais com o Irã em 2015.

O JCPOA, embora imperfeito, impunha limites rigorosos ao enriquecimento de urânio iraniano — restringindo-o a 3,67% até 2030, nível insuficiente para a produção de armas nucleares. A maioria das cláusulas expirava em 2025, mas, naquele momento, o acordo cumpria seu papel: estabilizar as relações e evitar uma escalada nuclear. Especialistas, inclusive críticos ao Irã, reconheciam sua eficácia.

Trump, no entanto, descartou o acordo como "fraco" e "injusto", sem sequer analisar seu conteúdo. Relatos indicam que o então presidente não leu os 18 páginas principais do documento — e muito menos os 160 anexos. Para ele, o simples fato de ter sido assinado por Obama foi motivo suficiente para rejeitá-lo.

Em maio de 2018, os EUA se retiraram do JCPOA e impuseram uma política de "pressão máxima" ao Irã, com sanções econômicas devastadoras. A estratégia, no entanto, teve o efeito oposto ao desejado. Sem o apoio dos EUA, os outros signatários do acordo — Reino Unido, França, Alemanha, China e Rússia — não conseguiram manter o pacto vivo. O Irã, pressionado, começou a acelerar seu programa nuclear.

Em 2020, o presidente iraniano Hassan Rouhani declarou publicamente que o país já enriquecia urânio a níveis superiores aos de antes do acordo. De 3,67%, a taxa saltou para 60% — um patamar próximo ao necessário para a fabricação de armas nucleares. A situação se agravou ainda mais com a morte do general Qasem Soleimani, em janeiro de 2020, em um ataque americano, e com a escalada de ataques entre forças iranianas e aliados dos EUA na região.

Hoje, o que se vê é um cenário de instabilidade crescente, com o Irã cada vez mais próximo de obter capacidade nuclear e os EUA envolvidos em uma guerra indireta que ninguém parece capaz de controlar. Especialistas alertam que a decisão de Trump não apenas reacendeu tensões, mas também minou a credibilidade dos EUA como parceiro confiável em negociações internacionais.

"Trump não apenas jogou fora um acordo que funcionava, como também criou as condições para que o Irã se tornasse uma ameaça maior do que já era. Agora, os EUA estão presos em uma armadilha de sua própria criação, sem uma saída clara."
— Analista político especializado em Oriente Médio

A história pode julgar Trump por suas ações, mas o preço já está sendo pago. O Oriente Médio, outrora um barril de pólvora, agora vive um incêndio que ameaça se espalhar. E tudo começou com uma decisão impulsiva, baseada em vaidade e ignorância.