Menos de 24 horas após um momento de união com a imprensa de Washington, uma pergunta desconfortável foi suficiente para o presidente Donald Trump voltar a hostilizar os jornalistas. O episódio ocorreu após um atirador invadir o jantar da Associação de Correspondentes da Casa Branca no sábado (11).

Contexto: Em poucos anos, Trump, a imprensa e o país normalizaram uma geração inteira de violência política. O presidente, que já sobreviveu a três tentativas de assassinato em dois anos, tratou o episódio como algo corriqueiro.

Em sua primeira entrevista televisionada desde o ataque, concedida ao programa 60 Minutes, Trump afirmou não ter se preocupado. "Eu não estava preocupado. Entendo a vida. Vivemos em um mundo louco", declarou.

Visão de longo prazo: O presidente minimizou a possibilidade de mudanças na trajetória da violência política nos EUA. "Você volta 20, 40, 100, 200 ou 500 anos, isso sempre existiu. Não acho que esteja pior agora do que antes", afirmou.

Trump também responsabilizou os democratas pelo discurso de ódio: "Acho que o discurso de ódio dos democratas, muito mais do que o meu, é muito perigoso. Realmente acho que é muito perigoso para o país".

Momento de união durou pouco

Imediatamente após o ataque, Trump adotou um tom conciliatório no Salão de Briefing da Casa Branca, elogiando a "imensa demonstração de amor e união". Ele havia chegado ao evento preparado para atacar: "Estava pronto para detonar. Não sei se conseguiria ser tão duro quanto iria", confessou.

Na entrevista ao 60 Minutes, ele descreveu o clima como "espiritual": "Era como se o país estivesse unido. Foi impressionante. Deixou uma grande marca em mim".

Tensão volta com perguntas sobre manifesto

A trégua, no entanto, durou pouco. Ao ser questionado se o atentado mudaria sua relação com a imprensa, Trump desviou o foco para os democratas, chamando-os e à mídia de "quase a mesma coisa".

Quando a apresentadora Norah O'Donnell leu trechos do manifesto do atirador — que incluía acusações falsas contra Trump —, o presidente reagiu com indignação: "Não sou estuprador. Não estuprei ninguém. Não sou pedófilo", afirmou, voltando a acusar os democratas de envolvimento com Jeffrey Epstein.

"Você lê essa merda de algum doente?", questionou, dizendo que O'Donnell deveria "se envergonhar", mesmo após ela esclarecer que se tratava das palavras do suspeito. "Você não deveria ler isso no 60 Minutes. Você é uma vergonha", declarou.

Histórico de conflitos com a imprensa

Trump mantém uma relação conflituosa com a mídia desde o início de seu mandato. Ele processou grandes veículos, incluindo a 60 Minutes (da Paramount), por bilhões de dólares, baniu a AP da Sala Oval e retirou da Associação de Correspondentes da Casa Branca o direito histórico de escolher os repórteres credenciados. Além disso, atacou individualmente jornalistas por nome.

A questão de Epstein é um dos temas que mais provocam Trump. Ele chegou a processar o Wall Street Journal por US$ 10 bilhões após reportagem sobre suas ligações com o criminoso.

Fonte: Axios