O estado da Califórnia gastou quase meio bilhão de dólares em um sistema de resposta a emergências que confundiu operadores e, segundo relatos, atrasou atendimentos médicos. Agora, legisladores pressionam por uma fiscalização mais rigorosa do programa após jornalistas locais exporem falhas que colocaram vidas em risco.
O início do projeto e suas promessas
O problema começou em 2019, quando o governador Gavin Newsom prometeu modernizar o sistema de chamadas de emergência do estado, considerado obsoleto. A proposta era substituir o sistema analógico pelo Next Generation 911, uma tecnologia avançada capaz de transmitir voz, texto e vídeo. A Cal OES (Escritório de Serviços de Emergência da Califórnia) estimou que o projeto seria concluído até 2021.
No entanto, a implementação enfrentou atrasos significativos. Até 2024, apenas alguns operadores haviam sido conectados ao novo sistema, que apresentava inúmeras falhas. Segundo o jornal The Sacramento Bee, o investimento total chegou a US$ 450 milhões entre 2019 e 2025, pagos a quatro empresas de tecnologia responsáveis pelo desenvolvimento do Next Generation 911.
Três dessas empresas foram designadas para cobrir regiões específicas, enquanto a quarta atuaria como provedora estadual para evitar que uma única falha causasse um apagão generalizado. No entanto, quando o sistema foi ativado, não funcionou como esperado.
Falhas graves colocaram vidas em risco
Em Tuolumne County, operadores relataram à unidade investigativa da NBC Bay Area que recebiam chamadas mal encaminhadas de outros condados, além de perderem ligações de emergência. Em um caso extremo, houve um período de 12 horas em que os chamadores não conseguiam ligar para o 911. Os operadores também afirmaram não conseguir transferir uma chamada sobre um ataque cardíaco em andamento.
Em Desert Hot Springs, policiais relataram dificuldades para transferir chamadas, resultando em atrasos no atendimento médico de emergência. Um operador declarou que a situação levou a um retardo na prestação de socorro.
Investimento bilionário com resultados desastrosos
Após gastar centenas de milhões em um projeto que não atendeu às expectativas, a Califórnia agora busca corrigir os erros. Em fevereiro, o senador estadual Tony Strickland (R–Huntington Beach) apresentou o projeto de lei "Fix 911 Act", que exige que a Cal OES envie relatórios periódicos à Legislatura estadual detalhando o progresso e os custos do projeto.
Um comunicado à imprensa anunciando a proposta destacou como reportagens do The Sacramento Bee e da NBC Bay Area revelaram a necessidade de maior accountability governamental. Na Assembleia Estadual, a deputada Rhodesia Ransom (D–Tracy) também apresentou legislação exigindo mais supervisão do projeto.
Novo plano prevê implementação estadual até 2030
A Cal OES descartou o plano regional original e agora trabalha para implementar o novo sistema de 911 em todo o estado até 2030. No entanto, especialistas alertam que será necessário auditoria rigorosa e fiscalização cuidadosa para evitar novos fracassos.
"Os perdedores são sempre os mesmos: os contribuintes e moradores que, neste caso, continuam pagando uma taxa mensal na conta de telefone por uma tecnologia que não funciona e torcendo para que o sistema atual não entre em colapso e deixe seus operadores locais em um apagão total."
Sem o trabalho de jornalismo investigativo local, os californianos provavelmente teriam arcado com os custos de um sistema caro e ineficaz por muito mais tempo. Ainda assim, o fracasso do programa não surpreende, dado o histórico exaustivo da Califórnia em projetos de grande escala com resultados aquém do esperado.