A Cláusula de Emolumentos Domésticos voltou a ser alvo de uma ação judicial contra Donald Trump, desta vez relacionada à doação de terras em Miami para a construção da Biblioteca Presidencial Trump. A acusação foi apresentada pelo Constitutional Accountability Center, organização que já havia movido processos semelhantes durante o primeiro mandato de Trump.
Contexto e histórico dos processos
Durante o primeiro governo Trump, grupos progressistas ingressaram com ações judiciais em Nova York, Maryland e no Distrito de Colúmbia. Eles argumentavam que governos estrangeiros e estaduais que frequentavam propriedades de Trump estariam oferecendo benefícios inconstitucionais ao presidente. Seth Barrett Tillman e o autor deste artigo apresentaram diversos amicus briefs nos tribunais distrital, de apelação e até no Supremo Tribunal. No entanto, os autores das ações nunca buscaram medidas urgentes, como liminares, e constantemente pediram adiamentos. Quando os casos chegaram ao Supremo, Trump já havia deixado a presidência, e as ações foram arquivadas sem desfecho relevante.
Com o início do segundo mandato de Trump, muitos esperavam que novas ações fossem movidas com base na Cláusula de Emolumentos ou na Seção 3 da Décima Quarta Emenda. No entanto, nada aconteceu. Até agora.
A nova acusação: terras doadas para a biblioteca presidencial
O Constitutional Accountability Center ingressou com uma nova ação, desta vez focada na Cláusula de Emolumentos Domésticos. Segundo a denúncia, o estado da Flórida e o Miami-Dade Community College teriam concedido terras no centro de Miami para a construção da biblioteca presidencial de Trump, o que configuraria um benefício inconstitucional.
Os réus incluem Trump, a própria biblioteca presidencial, o governador Ron DeSantis, o procurador-geral Ashley Moody e outros funcionários estaduais. A ação alega que a doação viola a cláusula, que proíbe presidentes de receber vantagens de governos estaduais.
Quem são os autores da ação?
A denúncia lista dois moradores de Miami que vivem perto do local planejado para a biblioteca. Eles afirmam que a construção bloqueará a vista para a Baía de Biscayne, aumentará o tráfego, reduzirá sua qualidade de vida e desvalorizará suas propriedades.
Outro autor é a Sistrunk Seeds, também conhecida como Dunn’s Farm, uma empresa que pretendia operar uma fazenda urbana no local. Segundo a ação, a empresa havia negociado com o Miami-Dade College para usar o terreno, mas a doação para a biblioteca impediu o projeto. A denúncia admite, no entanto, que não havia um contrato formal, apenas expectativas de futuras negociações:
"A parceria de longa data entre o MDC e a Dunn’s Farm demonstra que, no mínimo, o MDC teria considerado seriamente o pedido da fazenda para o terreno."
Perspectivas e desafios legais
A nova ação enfrenta obstáculos semelhantes aos processos anteriores. A principal questão é se os autores têm legitimidade para entrar com a ação (standing), já que não há um dano concreto e imediato comprovado. Em 2017, uma ação semelhante movida pelo mesmo centro de responsabilidade constitucional em nome do senador Richard Blumenthal e outros congressistas foi rejeitada por falta de legitimidade.
Além disso, a Cláusula de Emolumentos Domésticos raramente foi aplicada na história dos EUA, e sua interpretação ainda é objeto de debate jurídico. Trump, por sua vez, negará as acusações, argumentando que a doação de terras não configura um benefício pessoal inconstitucional.
O que esperar agora?
A ação deve enfrentar longas batalhas judiciais, com possibilidade de recursos até tribunais superiores. Enquanto isso, a construção da biblioteca presidencial em Miami segue como um projeto simbólico para os apoiadores de Trump, mas também como um novo alvo para seus críticos.