Por que a Doutrina das Questões Principais impede a expansão do poder presidencial em eleições

A Doutrina das Questões Principais (Major Questions Doctrine) tem se tornado um instrumento crucial para limitar a autoridade de agências federais, inclusive em questões eleitorais. Recentemente, o ex-presidente Donald Trump tentou ampliar seu controle sobre o processo eleitoral por meio do Decreto Executivo 14399, que determinava ao Serviço Postal dos EUA (USPS) fornecer listas de eleitores aptos a votar por correspondência e bloquear votos de quem não estivesse nessas listas.

Em um artigo publicado no Election Law Blog, o advogado Richard Bernstein explicou por que essa medida viola a Doutrina das Questões Principais. A Sociedade para o Estado de Direito, com o autor deste texto como advogado, apresentou um amicus brief (argumento de terceiro interessado) nos processos judiciais contra o decreto, sustentando que a doutrina se aplica a interpretações de autoridade de agências federais sobre eleições.

O que diz a Doutrina das Questões Principais?

A doutrina estabelece que, antes de uma agência federal regulamentar uma questão de grande impacto, o Congresso deve fornecer uma autorização clara e inequívoca. Como afirmou a Suprema Corte no caso West Virginia v. EPA (2022):

"Termos modestos, vagos ou dispositivos sutis não são suficientes para conferir tal autoridade."

Além disso, os tribunais presumem que o Congresso, e não as agências, deve tomar decisões políticas de grande relevância. Isso reflete tanto os princípios de separação de poderes quanto a intenção legislativa prática. Como destacou a Suprema Corte em Learning Resources, Inc. v. Trump (2026):

"Um intérprete razoável não esperaria que o Congresso transferisse uma decisão política de grande magnitude para outro poder."

Aplicação da doutrina em eleições federais

A Doutrina das Questões Principais é especialmente relevante para eleições federais, pois elas determinam quem exercerá o poder legislativo e executivo nos EUA. Como explicou James Madison no Federalist No. 51:

"A dependência do povo, por meio das eleições, é, sem dúvida, o controle primário sobre o governo."

O Artigo I, Seção 4 da Constituição dos EUA (Elections Clause) confere aos legislativos estaduais — sujeitos a alterações pelo Congresso — a autoridade para estabelecer as regras das eleições federais. Até hoje, o Congresso tem exercido esse poder de forma ativa.

Delegar ao presidente a capacidade de criar regras eleitorais representaria uma ruptura fundamental na estrutura constitucional. O sistema federalista de eleições, estabelecido pela Constituição e mantido por leis federais, promove tanto a integridade quanto a aparência de lisura nos pleitos, ao descentralizar as regras e sua execução.

Por que o Decreto 14399 não tem validade?

O Decreto Executivo 14399 não possui base legal clara para sua implementação. Embora um tribunal federal possa invalidá-lo sem recorrer à Doutrina das Questões Principais, esta doutrina reforça a ilegalidade da medida. A ausência de autorização congressional explícita torna a ação presidencial inconstitucional.

Em resumo, a Doutrina das Questões Principais atua como um mecanismo de freio contra tentativas de centralização indevida de poder, garantindo que decisões de grande impacto — como as regras eleitorais — sejam tomadas pelo Legislativo, não pelo Executivo.

Fonte: Reason