Um estudo recente da Universidade Yale, conduzido pelo professor associado de neurologia Adam de Havenon, identificou um aumento alarmante nos relatos de dificuldades cognitivas entre adultos jovens nos Estados Unidos. Segundo a pesquisa, publicada em 2025, a taxa de autodeclarados com problemas de memória e tomada de decisão entre pessoas de 18 a 34 anos quase dobrou em uma década, passando de 5,1% em 2013 para 9,7% em 2023.

No mesmo período, a média geral entre adultos cresceu de forma mais moderada, de 5,3% para 7,4%. O estudo acompanhou mais de 4,5 milhões de pessoas ao longo de dez anos. Mas o que esses dados realmente significam?

Não é demência, mas exige atenção

De Havenon esclarece que os resultados não indicam um surto de demência ou comprometimento cognitivo diagnosticável. Trata-se, na verdade, de relatos subjetivos de pessoas que afirmam enfrentar dificuldades significativas para se concentrar, lembrar informações ou tomar decisões.

“Na demência, há uma doença estrutural no cérebro, com patologias específicas que prejudicam a cognição”, explica o especialista. No entanto, ele ressalta que os achados merecem investigação mais profunda, pois o crescimento desses problemas pode ter impactos futuros no sistema de saúde e no mercado de trabalho.

Como os participantes do estudo não passaram por exames de imagem cerebral, ainda não é possível confirmar se há alterações estruturais associadas à demência. Pesquisas adicionais seriam necessárias para estabelecer uma relação entre o declínio cognitivo precoce e mudanças cerebrais típicas de doenças neurodegenerativas.

Custo econômico e necessidade de pesquisas

Caso essa conexão seja comprovada, as consequências poderiam ser graves. Um estudo publicado na revista Frontiers in Neurology estima que a demência custou à economia global US$ 1,3 trilhão em 2019. Por isso, investimentos em tratamentos — desde intervenções comportamentais até sprays nasais anti-inflamatórios — são essenciais para conter o problema.

Fatores socioeconômicos e o papel da tecnologia

O estudo de Yale também identificou uma relação entre os relatos de declínio cognitivo e fatores socioeconômicos, sugerindo que o problema pode estar se espalhando, especialmente entre jovens adultos, e que questões sociais e estruturais desempenham um papel fundamental.

Esses achados são reforçados por depoimentos recentes de especialistas. Em março de 2025, o neurocientista Jared Cooney Horvath apresentou um testemunho ao Comitê de Comércio, Ciência e Transporte do Senado dos EUA, afirmando que, nas últimas duas décadas, o desenvolvimento cognitivo de crianças em países desenvolvidos estagnou ou até regrediu.

Horvath atribui a situação a políticas públicas que incentivam a adoção massiva de tecnologia digital sem exigir evidências de eficácia, proteção de dados ou salvaguardas para o desenvolvimento infantil. “Isso pode agravar danos educacionais e no mercado de trabalho a longo prazo”, alertou.

O impacto da digitalização nas escolas

Nos últimos vinte anos, governos estaduais investiram fortemente na distribuição de laptops e tablets para estudantes, além de digitalizar funções escolares. O objetivo era preparar a Geração Z para um futuro cada vez mais tecnológico. No entanto, o resultado foi inesperado: essa geração é a primeira a apresentar pior desempenho em testes padronizados em comparação com as anteriores, apesar do acesso sem precedentes à informação desde cedo.

Como reverter o cenário?

Horvath defende que é necessário reavaliar as políticas de adoção tecnológica nas escolas e implementar medidas de proteção ao desenvolvimento cognitivo. Isso inclui limitar o uso excessivo de telas, priorizar interações sociais presenciais e garantir que a tecnologia seja usada de forma equilibrada e com propósitos educacionais claros.

Enquanto a ciência busca respostas definitivas, especialistas recomendam que indivíduos adotem hábitos que promovam a saúde cerebral, como exercícios físicos regulares, alimentação balanceada, sono de qualidade e redução do estresse. A prevenção, nesse caso, pode ser a melhor estratégia.