Florestas californianas sob efeito do glifosato
O que antes era um solo fértil, coberto por samambaias, arbustos e flores silvestres, agora se resume a manchas marrons e fileiras de mudas plantadas artificialmente. Essa foi a cena encontrada pelo repórter Nate Halverson, da Reveal, durante uma expedição para coleta de cogumelos próximo ao Monte Lassen, na Califórnia.
A investigação de um ano, publicada nesta semana, revelou que o Serviço Florestal dos Estados Unidos (US Forest Service) e empresas madeireiras estão utilizando quantidades recorde de glifosato — herbicida amplamente conhecido pela marca Roundup — em florestas californianas. O objetivo é acelerar a regeneração de áreas devastadas por mega-incêndios nos últimos anos.
Controvérsia e impactos ambientais
O glifosato, classificado como provavelmente cancerígeno pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2015, é alvo de críticas por seus efeitos nocivos à biodiversidade e à saúde humana. A aplicação em larga escala tem gerado debates sobre a sustentabilidade dessa prática.
Craig Thomas, especialista em restauração de ecossistemas, critica a parceria entre o Serviço Florestal e a indústria química: “O casamento entre a indústria de agrotóxicos e o Serviço Florestal precisa ser seriamente analisado”. Segundo ele, o órgão está “viciado no uso de herbicidas como o glifosato e precisa de reabilitação”.
Por que o glifosato é usado?
As empresas e o governo argumentam que o herbicida é necessário para eliminar espécies invasoras e permitir o crescimento de árvores nativas. No entanto, ambientalistas e cientistas alertam que a prática pode eliminar plantas benéficas, prejudicar a fauna e contaminar recursos hídricos.
Dados da investigação mostram que, entre 2017 e 2022, o uso de glifosato em florestas federais da Califórnia aumentou mais de 150%. Em 2022, foram aplicados cerca de 1,2 milhão de litros do produto em áreas de manejo florestal.
Alternativas em discussão
Críticos do método defendem a adoção de técnicas de restauração mais naturais, como:
- Rebrota natural de espécies nativas;
- Controle manual ou mecânico de ervas daninhas;
- Uso de fogo controlado (quando seguro e planejado);
- Planejamento de reflorestamento com espécies adaptadas ao clima local.
“Precisamos urgentemente repensar nossa abordagem”, afirma Thomas. “A saúde das florestas não pode depender de químicos que colocam em risco todo o ecossistema.”
“O uso excessivo de glifosato não só prejudica a biodiversidade, como também pode agravar os impactos das mudanças climáticas, ao reduzir a capacidade das florestas de sequestrar carbono.” — Relatório da ONG ambientalista Earthjustice
O que vem por aí?
A polêmica em torno do glifosato deve ganhar ainda mais atenção nos próximos meses, com possíveis mudanças na legislação estadual e federal. Enquanto isso, comunidades locais e ambientalistas pressionam por transparência e adoção de práticas mais sustentáveis.
Para acompanhar as investigações e debates sobre o tema, siga atualizações da Reveal e de organizações como Earthjustice e Center for Biological Diversity.