Plástico descartado no exterior: a queima ilegal que contamina comunidades
Em Tropodo, um vilarejo na ilha de Java, Indonésia, a paisagem bucólica esconde um problema grave: chaminés despejam fumaça negra sobre as casas. Não são indústrias convencionais, mas pequenas fábricas de tofu que usam plástico como combustível para aquecer a água no processo de produção. O método, comum na região, expõe moradores a substâncias tóxicas e representa um risco à saúde pública.
O destino do lixo plástico dos países ricos
Estudos indicam que cerca de 12% do lixo plástico global é incinerado, mas a prática é especialmente perigosa quando realizada sem tecnologia de controle de poluição. Em nações como Indonésia, Filipinas e Índia, empresas informais queimam plástico em fornos rudimentares para gerar energia ou calor industrial. O resultado são emissões de dioxinas, metais pesados e outros compostos cancerígenos.
Segundo pesquisa publicada na revista Nature em 2023, o plástico pode conter mais de 16 mil substâncias químicas diferentes, um quarto delas potencialmente nocivas à saúde. Quando queimado sem filtros, o material libera gases que aumentam os riscos de doenças respiratórias, defeitos congênitos e câncer em comunidades próximas.
O caso de Tropodo: plástico como combustível barato
Muhammad Gufron, dono de uma fábrica de tofu em Tropodo, recebe visitantes em sua casa de paredes esverdeadas. Ele conduz os visitantes até um galpão onde sacos de plástico triturado são armazenados. O material, seco ao sol por catadores, é jogado em um forno cilíndrico de metal. O calor intenso transforma o plástico em vapor, usado no processo de produção do tofu.
"É mais barato do que usar lenha ou gás", explica Gufron, enquanto alimenta o forno com pedaços de plástico. "Todo mundo aqui faz assim". A prática, no entanto, não é regulamentada e não há fiscalização sobre as emissões liberadas.
Impactos à saúde e falta de fiscalização
Pesquisas associam a queima de plástico a problemas como:
- Doenças respiratórias: asma, bronquite e infecções pulmonares;
- Câncer: exposição a dioxinas e benzeno;
- Defeitos congênitos: malformações cardíacas e neurológicas em recém-nascidos;
- Contaminação do solo e água: metais pesados se acumulam no ambiente.
Em 2015, um estudo pioneiro já alertava para os riscos da incineração de plástico, mesmo em fornos com filtros. Em instalações sem tecnologia de controle, os danos são ainda maiores. "As pessoas não percebem que estão respirando veneno", diz um morador de Tropodo que pediu anonimato.
"O plástico que jogamos fora não some. Ele viaja para países pobres, onde é queimado sem qualquer controle. Isso é uma crise de justiça ambiental." — Beth Gardiner, jornalista e autora de Plastic Inc.
Por que os países ricos exportam seu lixo plástico?
A exportação de lixo plástico por nações desenvolvidas é um problema global. Segundo dados da ONU, países como Estados Unidos, Japão e Alemanha enviam milhões de toneladas de plástico para reciclagem ou incineração em nações asiáticas e africanas. Muitas vezes, o material não é reciclado e acaba em lixões ou queimado de forma ilegal.
Em 2018, a China, que até então recebia grande parte do lixo plástico mundial, fechou suas portas para importações estrangeiras. Desde então, países como Malásia, Indonésia e Turquia se tornaram os principais destinos do plástico descartado. A falta de regulamentação nesses locais facilita a queima irregular do material.
Soluções possíveis
Especialistas defendem medidas como:
- Proibição da exportação de lixo plástico para países sem infraestrutura de reciclagem;
- Investimento em tecnologias limpas para incineração, com filtros avançados;
- Responsabilização das empresas produtoras de plástico pelo ciclo de vida do material;
- Educação ambiental para reduzir o consumo de plásticos descartáveis.
"Não podemos continuar exportando nossos problemas", alerta Gardiner. "A solução começa em reduzir a produção de plástico, não em jogá-lo no quintal de outros países".
Conclusão: um ciclo de poluição e injustiça
O caso de Tropodo é apenas um exemplo de um problema maior: a transferência de resíduos tóxicos dos países ricos para os pobres. Enquanto nações desenvolvidas lucram com a produção de plástico, as comunidades mais vulneráveis arcam com os custos ambientais e de saúde. Sem ações urgentes, o ciclo de contaminação continuará a se espalhar.