A situação no Mali se deteriorou rapidamente após uma série de ataques coordenados em 25 de abril, quando forças rebeldes — uma aliança entre a Al-Qaeda e grupos separatistas tuaregues — atingiram várias cidades, incluindo a capital Bamako, Gao, Kidal e Sévaré. O objetivo declarado é impor um bloqueio à Bamako, capital do país.

O general Assimi Goïta, líder da junta militar que governa o Mali desde 2020, havia desaparecido por dias antes de reaparecer em público para afirmar, de forma pouco convincente, que a "situação está sob controle". No entanto, os recentes eventos demonstram o contrário: a fragilidade do regime e a crescente influência de grupos insurgentes no país.

Um dos momentos mais simbólicos foi o atentado suicida contra a residência do ministro da Defesa, general Sadio Camara, que resultou em sua morte, além de sua esposa, dois netos e vários civis. Camara era uma das figuras mais influentes da junta e considerado um possível sucessor de Goïta. Ele também foi o principal arquiteto da aliança militar entre o Mali e a Rússia.

Nos últimos anos, o Mali, juntamente com o Burkina Faso e o Níger, formou a Aliança dos Estados do Sahel (AES), um bloco que se afastou da França — antiga potência colonial — e se aproximou da Rússia. Mercenários russos, como o Grupo Wagner e, mais recentemente, o Corpo Africano, têm apoiado as juntas militares no Sahel após golpes de Estado que levaram à retirada das tropas francesas da região.

Expulsão de mercenários russos e acusações de interferência estrangeira

Durante os ataques rebeldes, combatentes russos foram expulsos da cidade de Kidal, no norte do Mali, sob vaias da população local. O Corpo Africano, grupo paramilitar controlado pelo Kremlin, classificou os ataques como uma "tentativa de golpe" apoiada por "serviços de inteligência ocidentais". A emissora russa RT reforçou essa narrativa, acusando a França e o Ocidente de orquestrar a violência, mesmo enquanto alegava que os mercenários russos haviam repelido os rebeldes.

Em 2024, a agência militar da Ucrânia afirmou ter fornecido informações que permitiram aos rebeldes tuaregues emboscar e derrotar uma coluna do Wagner, resultando na morte de dezenas de mercenários russos. Tanto o Mali quanto o Níger romperam relações diplomáticas com Kiev, enquanto o Burkina Faso classificou a Ucrânia como uma "força desestabilizadora" na região. O Sahel, assim, tornou-se uma frente indireta na guerra entre Rússia e Ucrânia.

Propaganda russa no Sahel: sucesso midiático, mas não no campo de batalha

O Kremlin tem combinado desinformação e o uso de mercenários para explorar o crescente sentimento antiocidental no Sahel, obtendo vitórias de propaganda na região. No entanto, essa estratégia não tem se traduzido em sucesso militar. O Mali, assolado por insurgências e instabilidade, luta para conter o avanço dos rebeldes, enquanto a população local demonstra crescente descontentamento com a presença russa.

Enquanto isso, a França, antiga potência colonial, enfrenta críticas crescentes em toda a África. Recentemente, Madagascar expulsou um diplomata francês e acusou Paris de fomentar instabilidade no país, um sinal de que o ressentimento contra o Ocidente continua a se espalhar pelo continente.

"A aliança entre a Rússia e as juntas do Sahel não garante estabilidade, mas sim uma escalada de violência e dependência de atores externos." — Especialista em segurança regional.