No dia 4 de julho de 2020, um grupo de 11 manifestantes, incluindo uma professora do ensino fundamental e um funcionário da UPS, realizou o que chamou de "manifestação de barulho" em frente ao Centro de Detenção de Imigração e Alfândega Prairie-land, em Alvarado, Texas, a cerca de 50 km ao sul de Fort Worth. Alguns picharam carros com palavras de ordem, enquanto outros, aproveitando a comemoração do Dia da Independência, soltaram fogos de artifício. Não houve violência inicial, até a chegada do policial Thomas Gross, que sacou sua arma. Ele foi baleado, sem gravidade, por Benjamin Song, um dos manifestantes, que estava na mata. O episódio resultou na prisão de 19 pessoas, acusadas de crimes federais e estaduais, incluindo oito que não estavam no local.
Em fevereiro de 2021, nove dos acusados foram a julgamento em Fort Worth. As acusações incluíam: cinco por múltiplas tentativas de homicídio contra policiais e agentes penitenciários desarmados; oito por fornecimento de apoio material a terroristas, tumulto e porte de explosivos; e dois por "ocultação corrupta" e conspiração para esconder documentos. Song foi condenado por tentativa de homicídio, e os demais, por apoio material a terroristas. Daniel Sanchez Estrada, residente permanente nos EUA, sequer estava no protesto. Ele foi acusado de transportar "uma caixa com materiais da Antifa", mas, na verdade, apenas mudou uma caixa de zines anarquistas — sem relação com o grupo — da casa dos pais para outro endereço em Dallas. Estrada pode pegar até 40 anos de prisão.
O caso lembra perseguições históricas, como as Palmer Raids ou a era do FBI de J. Edgar Hoover. No entanto, desta vez, o governo dos EUA introduziu uma nova e preocupante estratégia: acusar os manifestantes de pertencerem a uma "célula terrorista da Antifa no Norte do Texas". A Antifa, apesar de ser alvo frequente de desinformação, nunca foi definida como organização terrorista nos EUA. Mesmo assim, a administração Trump passou a tratá-la como "inimiga pública número um", buscando destruir não só o grupo, mas também qualquer forma de apoio a ele em toda a sociedade americana.
O aspecto mais alarmante desse caso é a ausência de provas que liguem a Antifa ao protesto ou à violência. Além disso, não existe nos códigos penais americanos qualquer crime definido como "terrorismo doméstico". A categoria foi criada artificialmente pela administração Trump para criminalizar qualquer forma de dissidência que considerasse incômoda. A falta de respeito ao devido processo legal, procedimentos padrão e até mesmo ao bom senso reforça a natureza política dessas acusações.
"O governo federal inventou uma nova categoria de crime para perseguir ativistas, mesmo sem nenhuma evidência concreta. Isso representa um ataque sem precedentes à liberdade de expressão e ao direito de protesto nos Estados Unidos."
Os defensores dos direitos civis alertam que a criminalização da Antifa — um movimento descentralizado e sem hierarquia — pode abrir um precedente perigoso. Acusações baseadas em ideologia, e não em atos concretos, ameaçam não apenas ativistas, mas também organizações legítimas de defesa de direitos humanos. Casos como o de Estrada mostram como a justiça pode ser distorcida para atingir alvos políticos, independentemente de sua participação real nos eventos.
A estratégia de rotular opositores como "terroristas domésticos" tem sido usada para justificar prisões preventivas, vigilância massiva e restrições a liberdades fundamentais. Especialistas em direitos humanos temem que essa abordagem possa se espalhar para outros grupos, como movimentos ambientais ou de justiça social, que também enfrentam perseguição política.
Enquanto o julgamento dos acusados prossegue, a sociedade americana assiste a um teste crucial: até que ponto o Estado pode usar o sistema de justiça para silenciar a dissidência, sob o pretexto de combater o terrorismo? A resposta a essa pergunta definirá o futuro da democracia nos EUA.