A plataforma de apostas Polymarket registrou quase US$ 3 milhões em apostas nos últimos quatro dias sobre a possibilidade de um surto de hantavírus em 2024. O movimento foi impulsionado por um recente surto de uma cepa particularmente letal do vírus em um navio de cruzeiro no mês passado, que resultou em três mortes entre oito casos suspeitos.

Embora o cenário tenha gerado preocupações, a Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou o risco de uma pandemia como baixo. No entanto, usuários da Polymarket estão apostando em diversas previsões relacionadas ao hantavírus, incluindo a possibilidade de desenvolvimento de uma vacina ainda este ano e se autoridades irão associar o surto do navio a um "vazamento de laboratório".

A Polymarket não comentou sobre as apostas relacionadas ao hantavírus.

"Não é o início de uma pandemia como a Covid-19", afirmou Maria Van Kerkhove, diretora de Gerenciamento de Epidemias e Pandemias da OMS, em coletiva de imprensa na quinta-feira (22). "Não é Covid, não é influenza. A forma de transmissão é completamente diferente."

Especialistas em doenças infecciosas já sabem que essa cepa do hantavírus requer contato próximo para se espalhar entre pessoas, e um indivíduo infectado é contagioso por apenas cerca de um dia. Essas características, que ajudam as autoridades de saúde a calibrar suas respostas, também influenciam como alguns apostadores online estão posicionando suas apostas.

Apostas online ganham força após legalização e pandemia

As apostas online vêm crescendo desde que a Suprema Corte dos EUA legalizou as apostas esportivas em 2018. No entanto, a pandemia de Covid-19 impulsionou ainda mais o setor. Em 2020, as receitas de apostas esportivas aumentaram 69% em relação ao ano anterior, mesmo com a redução de eventos esportivos. Mas havia outras apostas possíveis, como o número de mortes por Covid-19, um tema que algumas pessoas começaram a apostar ainda em abril de 2020. Na época, essas apostas eram ilegais, já que os mercados de previsão eram mais rigidamente regulamentados.

Uma decisão judicial de 2024, no entanto, removeu barreiras para sites como a Polymarket e a Kalshi, permitindo que usuários apostem em quase qualquer coisa — inclusive em crises de saúde pública.

Risco de vício em apostas e saúde pública

John W. Ayers, professor de saúde pública da Universidade da Califórnia em San Diego, alerta para os riscos. "Qualquer pessoa apostando na disseminação de um vírus provavelmente tem um problema de vício em jogos", afirmou. "Quem sofre de dependência de apostas tem maior probabilidade de se envolver em apostas em temas mais obscuros, como crises de saúde pública."

Há anos, especialistas em saúde pública alertam para o aumento de casos de vício em apostas, embora os números exatos sejam difíceis de precisar. Um estudo liderado por Ayers, publicado no ano passado, revelou que as buscas no Google por ajuda para tratar vício em apostas aumentaram 23% nos EUA desde a legalização das apostas esportivas. Outras pesquisas estimam que cerca de 10% dos homens entre 18 e 30 anos têm um relacionamento problemático com jogos de azar.

Plataformas como a Kalshi e a Polymarket crescem com o uso, ampliando a variedade de apostas de nicho. Desde o início da pandemia de Covid-19, os mercados de previsão ganharam ainda mais relevância, atraindo apostadores interessados em eventos globais.