A Sequans Communications, empresa francesa especializada em semicondutores para IoT, anunciou a venda de 1.025 Bitcoins durante o primeiro trimestre de 2026. A operação reduziu suas reservas digitais de 2.139 BTC para 1.114 BTC até 30 de abril, marcando a segunda grande venda em seis meses.

Há menos de um ano, a companhia havia anunciado planos de acumular 3.000 Bitcoins como reserva de valor a longo prazo. No entanto, a estratégia se tornou insustentável diante de uma queda acentuada na receita e prejuízos crescentes.

Receita em queda e margens pressionadas

A empresa registrou receita de US$ 6,1 milhões no trimestre encerrado em 31 de março, uma queda de 24,8% em relação aos US$ 8,1 milhões do mesmo período do ano anterior. A comparação evidencia a fragilidade da companhia: no ano anterior, a receita incluía valores significativos provenientes de licenças e serviços da Qualcomm, que não se repetiram neste ano.

Embora as vendas de produtos tenham crescido 45% em relação ao ano anterior, a margem bruta caiu de 64,5% para 37,7%, devido à redução da participação de receitas com licenciamento de alto valor. Para uma empresa com fluxo de caixa negativo, essa mudança na composição da receita agravou os desafios financeiros.

Estratégia com Bitcoin se tornou um fardo

As reservas em Bitcoin, antes apresentadas como um ativo estratégico pelo CEO Georges Karam, agora representam um prejuízo substancial para a Sequans.

No trimestre, a empresa registrou prejuízo operacional de US$ 50,5 milhões, impulsionado por US$ 29,3 milhões em perdas não realizadas com a desvalorização do Bitcoin e US$ 11,7 milhões em prejuízos realizados com a venda dos ativos digitais.

Os recursos obtidos com a venda dos Bitcoins foram utilizados para resgatar dívidas conversíveis e financiar um programa de recompra de ações, uma medida pragmática para reduzir passivos, mas que reforça a transição da estratégia de tesouraria de acumulação para liquidação.

Bitcoins remanescentes como garantia

Dos 1.114 BTC restantes em 30 de abril, 817 — correspondentes a 73% das reservas, avaliadas em US$ 62,3 milhões — estavam empenhados como garantia para US$ 35,9 milhões em notas conversíveis. O valor das Bitcoins em garantia supera o da dívida, refletindo a exigência de supercolateralização por parte dos credores, que buscam proteção contra a volatilidade do mercado cripto.

A dívida remanescente deve ser resgatada até 1º de junho de 2026, quando todos os Bitcoins ficarão livres para venda. Ainda não está claro se a Sequans manterá os ativos ou continuará liquidando para financiar suas operações.

Prejuízo líquido de US$ 54,3 milhões

O prejuízo líquido totalizou US$ 54,3 milhões, ou US$ 3,73 por ação (ADS) diluída, ante US$ 7,3 milhões, ou US$ 0,29 por ação, no mesmo período do ano anterior. Mesmo em uma base não-IFRS — que exclui perdas com impairment, remuneração baseada em ações e ajustes contábeis relacionados a dívidas conversíveis — o prejuízo foi de US$ 20,7 milhões, ou US$ 1,42 por ação.

Visão do CEO e perspectivas do negócio

O CEO Georges Karam descreveu as vendas de Bitcoin como "medidas decisivas para simplificar e fortalecer nosso balanço patrimonial", ao mesmo tempo em que destacou o crescimento no negócio principal de semicondutores para IoT. Ele mencionou um backlog crescente, projetos em andamento e interesse crescente em soluções de conectividade Cat-M, Cat-1bis e 5G eRedCap, além de novos transceptores de RF para drones e aplicações de defesa.