O acordo comercial firmado em julho entre os Estados Unidos e a União Europeia foi apresentado como um marco de estabilidade e modernização nas relações comerciais transatlânticas. A administração Trump classificou o acordo como uma "modernização geracional da aliança transatlântica", enquanto a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que ele restauraria "estabilidade e previsibilidade" ao impor tarifas de 15% sobre a maioria dos bens europeus exportados para os EUA, enquanto a maioria das importações americanas para a Europa seria isenta.
Na prática, Trump obteve redução de tarifas sobre exportações americanas e estabeleceu uma nova base permanente de 15% sobre produtos europeus. Para a UE, a vitória foi a redução da ameaça de tarifas de 25% que Trump havia feito anteriormente, além de evitar aumentos arbitrários em futuras negociações.
Essa aparente vitória, no entanto, durou pouco. Na sexta-feira, Trump anunciou um aumento das tarifas sobre carros europeus de 15% para 25%, decisão que pode custar aos fabricantes cerca de US$ 4 bilhões ainda este ano. Autorizado pela Seção 232 da Lei de Expansão Comercial de 1962, o aumento não depende de aprovação judicial, como ocorreu com outras medidas tarifárias recentemente limitadas pela Suprema Corte.
Em publicação no Truth Social, Trump justificou a medida alegando que a UE não estaria cumprindo o acordo comercial "totalmente acordado". No entanto, o acordo ainda não foi ratificado integralmente pela UE — embora tenha avançado no Legislativo europeu em março — e nem sequer foi submetido à aprovação do Congresso dos EUA. A situação se torna ainda mais confusa diante do fato de que, há poucas semanas, representantes comerciais europeus visitaram a Casa Branca e anunciaram uma nova parceria conjunta para minerais estratégicos, com clima aparentemente positivo entre as partes.
A decisão repentina de Trump não apenas coloca em risco todo o acordo comercial, como também reacende as tensões entre EUA e Europa. Bernd Lange, presidente da Comissão de Comércio Internacional do Parlamento Europeu, classificou a medida como "inaceitável" em publicação no Twitter. "A confiança é boa, mas contra o arbítrio, só regras claras ajudam", afirmou. Lange tem razão: o anúncio de sexta-feira reforça, mais uma vez, que parceiros comerciais não podem confiar em Trump.
O valor das promessas presidenciais e a validade de seus "acordos" passaram a ser questionados internacionalmente. Quem se arriscaria a negociar com um líder cuja palavra muda constantemente, por qualquer motivo? A capacidade de Trump de convencer outros países a buscar melhores termos comerciais com os EUA — um dos pilares de sua política tarifária — fica ainda mais comprometida.
O objetivo central de um acordo comercial é justamente oferecer estabilidade e previsibilidade para empresas e indivíduos planejarem investimentos e transações. Tarifas flutuantes e decisões unilaterais minam essa lógica, transformando negociações em um jogo de incertezas. Com essa nova medida, Trump não apenas prejudica a confiança na liderança americana, como também demonstra desconhecimento sobre o real propósito dos acordos comerciais.