Mia Tretta, hoje com 21 anos, é um exemplo de como a violência armada pode deixar marcas permanentes. Em 2019, ainda aluna do primeiro ano do ensino médio na Saugus High School, em Santa Clarita, Califórnia, ela foi alvejada no estômago por um projétil calibre .45 disparado por um colega de classe. Na ocasião, dois estudantes foram mortos, incluindo sua melhor amiga, e outros dois ficaram feridos.

Anos depois, enquanto cursava a faculdade na Brown University, em dezembro de 2025, Tretta vivenciou outro episódio traumático. Durante a preparação para as provas finais em seu quarto, mensagens sobre um atirador ativo no campus começaram a circular. Mesmo a quilômetros de distância, ela sentiu a mesma dor onde havia sido baleada. Foi então que descreveu pela primeira vez o que chamou de “síndrome do projétil fantasma”, semelhante à síndrome do membro fantasma, na qual o corpo sente a presença de algo que não existe. Segundo ela, esses episódios ocorrem sempre que o estresse atinge níveis extremos.

“É difícil explicar, mas a primeira vez eu fui ‘sortuda’ porque, embora tenha sido baleada, sobrevivi. Na segunda, também fui ‘sortuda’ por estar a poucos quarteirões do local”, declarou Tretta, hoje ativista contra a violência armada e estudante de Relações Públicas e Educação.

Estudo revela ligação entre violência armada e dor crônica

Tretta faz parte de um grupo crescente de jovens que sobreviveram a mais de um tiroteio. Além disso, sua história reforça os achados de um estudo recente publicado na revista BMC Public Health, que estabelece uma conexão entre exposição à violência armada e o desenvolvimento de dores crônicas em adultos norte-americanos.

A pesquisa, conduzida por pesquisadores da Universidade Rutgers, analisou seis formas de exposição à violência armada: ter sido baleado, ser ameaçado com arma de fogo, ouvir tiros, testemunhar um tiroteio, conhecer alguém baleado ou saber de um suicídio por arma de fogo na família ou entre amigos. Com base em uma amostra representativa de 8.009 pessoas, os resultados mostraram que 23,9% dos entrevistados sentem dor na maioria dos dias ou todos os dias, enquanto 18,8% relataram sentir dores intensas com frequência.

Daniel Semenza, principal autor do estudo e diretor de pesquisa do New Jersey Gun Violence Research Center, destacou que tanto a perda de um ente querido quanto a experiência pessoal de ser baleado afetam diretamente a saúde física e mental. “O corpo, por meio do estresse pós-traumático, sente como se o evento estivesse se repetindo incessantemente”, afirmou Semenza, também professor associado da Rutgers.

Dor física e emocional que persistem

Tretta passou por cirurgias para remover o projétil alojado em seu corpo, mas fragmentos ainda permanecem. Ela também precisou de um bloqueio nervoso para aliviar a dor persistente e foi diagnosticada com artrite psoriática, uma doença crônica que causa inchaço, dor e rigidez nas articulações.

“Desde o tiroteio, convivo com dores crônicas, imunodeficiências e diferenças corporais. Cada febre que tenho é diferente de tudo que já senti antes ou que qualquer outra pessoa possa imaginar. Tremores incontroláveis e dores ao menor toque são constantes.”

Para os pesquisadores, os resultados reforçam a necessidade de políticas públicas que abordem não apenas os impactos imediatos da violência armada, mas também suas consequências a longo prazo, como a dor crônica e os distúrbios de saúde mental associados.