Energia a carvão tem crescimento limitado em 2026, aponta estudo
Um suposto "retorno ao carvão" após a crise no Irã está longe de ser tão expressivo quanto se imaginava. Segundo nova análise da Ember, think tank especializado em energia, o aumento global na geração de energia a carvão em 2026 não deve ultrapassar 1,8%. O cenário, considerado "pior caso", pode ser ainda menor na prática.
Sem retomada significativa
Dados recentes mostram que, até o momento, não houve qualquer "retorno ao carvão" neste ano. Embora países como Japão, Paquistão e Filipinas tenham anunciado planos para aumentar o uso de carvão devido à escassez de gás natural, a análise da Ember projeta um crescimento mínimo nessas iniciativas.
Além disso, a queda no consumo de carvão em outras nações e a desaceleração no crescimento da demanda global por eletricidade podem manter a geração a carvão em trajetória de declínio em 2026. Especialistas ouvidos pela Carbon Brief afirmam que o grande destaque não é um ressurgimento do carvão, mas sim o avanço das energias limpas como alternativa mais atrativa durante a crise energética.
Crise no Irã afeta fornecimento de gás natural
A tensão após os ataques dos EUA e Israel ao Irã interrompeu parte do fornecimento global de gás natural, especialmente após o bloqueio do Estreito de Ormuz, principal rota de transporte de gás liquefeito (GNL) para a Ásia. Embora esse estreito seja responsável por cerca de 20% do comércio global de GNL, sua importância é menor em termos de fornecimento total de gás, já que grande parte do combustível é transportada por gasodutos.
Com a redução na oferta e os preços do gás acima dos níveis pré-conflito, pelo menos oito países na Ásia e Europa anunciaram medidas para aumentar a geração de energia a carvão ou adiar planos de desativação de usinas termelétricas. Entre eles estão Japão, Coreia do Sul, Bangladesh, Filipinas, Tailândia, Paquistão, Alemanha e Itália — muitos deles grandes consumidores de carvão.
Mídia superestima impacto do carvão
Essas declarações geraram uma onda de reportagens internacionais sobre um suposto "retorno do carvão", com alguns setores criticando a medida por ser incompatível com as metas climáticas, enquanto outros a apresentam como um sinal de que o combustível fóssil estaria "ressuscitando". Essa narrativa lembra o que ocorreu após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, quando muitos analistas previram um aumento no uso de carvão na Europa devido à interrupção do fornecimento de gás russo.
No entanto, os dados mostram que, apesar de um pico em 2022, o consumo de carvão na União Europeia voltou a cair, atingindo um recorde histórico de baixa em 2025.
Gás natural x carvão: o que os números revelam
Até março de 2026, não houve retomada significativa do carvão. Dados do Centro de Pesquisa em Energia e Ar Limpo (CREA) indicam que, nesse mês, a geração global de energia a carvão permaneceu estável, enquanto a produção de energia a gás natural registrou queda. Especialistas reforçam que o atual cenário não representa uma reversão na tendência de longo prazo de substituição do carvão por fontes mais limpas.
"O grande enredo não é sobre um ressurgimento do carvão, mas sim sobre a aceleração dos investimentos em energias limpas, que se mostram mais viáveis até mesmo em meio à crise energética."
Perspectivas para o futuro
A análise da Ember e outros estudos recentes sugerem que, mesmo em um contexto de instabilidade geopolítica, o papel do carvão na matriz energética global continua em declínio. A transição para fontes renováveis, impulsionada por custos decrescentes e políticas ambientais mais rígidas, deve manter essa trajetória nos próximos anos.
Enquanto alguns países ajustam suas estratégias energéticas de curto prazo, a tendência de longo prazo aponta para a redução progressiva do carvão, com a energia solar, eólica e outras fontes limpas ganhando espaço no mercado.