No mês passado, o ex-diretor do Centro de Avaliação e Pesquisa de Produtos Biológicos da FDA (Food and Drug Administration), Vinay Prasad, enviou um e-mail interno afirmando que "pelo menos 10 crianças morreram após e por terem recebido a vacina contra a COVID-19". No entanto, o ex-funcionário não apresentou nenhuma prova para sustentar sua alegação, e até hoje não há evidências que a comprovem. Prasad deixou a agência no final de abril, encerrando uma passagem marcada por controvérsias.
Enquanto isso, outros aliados do governo Trump continuam a disseminar dúvidas sobre a segurança das vacinas já aprovadas e testadas. Um dos principais nomes envolvidos é Jay Bhattacharya, que ocupa simultaneamente os cargos de chefe do NIH (National Institutes of Health) e diretor interino do CDC (Centers for Disease Control and Prevention). Em abril, Bhattacharya atrasou e, por fim, bloqueou a publicação de um estudo no Morbidity and Mortality Weekly Report (MMWR) do CDC, que avaliava a eficácia das vacinas contra a COVID-19 para o período 2025–2026.
Os pesquisadores haviam constatado que a eficácia real das vacinas em adultos com mais de 18 anos era de 50% contra atendimentos de emergência e urgência e de 55% contra hospitalizações relacionadas à COVID-19, em comparação com quem não recebeu a dose atualizada. Em um artigo de opinião publicado no The Washington Post, Bhattacharya justificou a supressão do estudo como uma questão de "desacordo científico" sobre a metodologia utilizada pelos pesquisadores, especialmente em relação ao test negative design — uma técnica amplamente empregada em estudos de eficácia vacinal em todo o mundo, incluindo Reino Unido, Austrália, Canadá e países europeus.
Esse método compara pessoas doentes que testam positivo para COVID-19 com aquelas que testam negativo para outras doenças respiratórias. Ao analisar quem foi vacinado em cada grupo, os pesquisadores concluem se a vacina oferece proteção. O estudo suprimido confirmou que as vacinas proporcionavam cerca de 50% de proteção contra visitas a pronto-socorros e internações. Além disso, os autores destacaram que, devido à alta imunidade prévia da população — seja por vacinação anterior ou infecção — a eficácia observada refletia o benefício adicional das doses atualizadas.
Bhattacharya também argumentou que os artigos do MMWR não são "revisados por pares externos", uma crítica que ignora o fato de que estudos revisados por pares sobre a eficácia das vacinas contra a COVID-19 geralmente apresentam resultados semelhantes aos publicados pelo MMWR.
As ações do governo Trump não se limitam à supressão de dados. Segundo reportagem do The New York Times, a FDA recentemente bloqueou a publicação de diversos estudos apoiados pela agência que avaliavam a segurança das vacinas contra a COVID-19 e a herpes-zóster em periódicos científicos revisados por pares. Essas medidas reforçam um padrão de desinformação e minam a confiança pública na ciência e nas vacinas, essenciais para a saúde coletiva.