Pressão chinesa derruba evento global em Zâmbia
A RightsCon, a maior conferência internacional sobre direitos digitais, foi cancelada pela organização Access Now após a Zâmbia ceder à pressão do governo chinês. A decisão, tomada cinco dias antes do início do evento, impediu a participação de milhares de ativistas, pesquisadores e especialistas de todo o mundo.
Taiwan na mira da China
A justificativa para o cancelamento veio na forma de uma carta do Ministério da Tecnologia da Zâmbia, que mencionou a necessidade de "divulgação abrangente de informações críticas" sobre os temas discutidos. No entanto, a Access Now revelou que a pressão chinesa foi direta: diplomatas da China alertaram que a presença de participantes de Taiwan — como Jo-Fan Yu, CEO do Taiwan Network Information Center, e E-Ling Chiu, diretora da Anistia Internacional Taiwan — era inaceitável.
Peça fundamental para o evento, a participação de ativistas taiwaneses foi vista como uma afronta por Pequim, que considera Taiwan parte de seu território. A China tem historicamente pressionado governos e empresas a não reconhecerem a soberania taiwanesa.
Logística impossível: cancelamento em cima da hora
A RightsCon é um evento meticulosamente planejado, com mais de um ano de preparação, envolvendo a coordenação de centenas de sessões e a participação de milhares de pessoas. Cancelá-lo uma semana antes do início é extremamente raro e praticamente inviável.
Segundo a Access Now, a Zâmbia inicialmente anunciou um adiamento, mas, após contato com a organização, confirmou o cancelamento oficial. "É simplesmente impossível adiar um evento dessa magnitude uma semana antes de começar", declarou a ONG em comunicado.
Reação e consequências
A pressão chinesa não é novidade. Em 2025, a RightsCon já havia sido realizada em Taipei, capital de Taiwan, sem interferências. A decisão da Zâmbia, no entanto, levanta preocupações sobre a influência crescente da China em países africanos e sua capacidade de influenciar eventos internacionais.
A Access Now afirmou que tomou todas as medidas para garantir a segurança dos participantes taiwaneses, mas a pressão diplomática foi decisiva. "Abrimos canais de comunicação assim que soubemos do risco, mas a pressão externa foi mais forte", declarou a organização.
"Em 27 de abril, um dia após um comunicado do governo zambiano endossar a RightsCon, recebemos uma ligação do Ministério da Tecnologia informando que diplomatas chineses estavam pressionando o governo da Zâmbia devido à participação presencial de ativistas da sociedade civil taiwanesa."
O que é a RightsCon?
A RightsCon é o principal fórum global dedicado à defesa dos direitos humanos no ambiente digital. Desde 2011, o evento reúne governos, empresas, ativistas e acadêmicos para discutir privacidade, liberdade de expressão, vigilância e acesso à internet. Em 2025, seria realizado pela primeira vez na África, após ser sediado em cidades como Toronto, Manila e Taipei.
A edição de 2024, realizada em San José, na Costa Rica, contou com mais de 1.500 participantes de 100 países. O cancelamento na Zâmbia representa um retrocesso para o movimento global de direitos digitais, especialmente em um continente onde a liberdade na internet enfrenta crescentes desafios.