Por que uma moratória aos data centers pode ser um tiro no pé para a esquerda?

Holly Jean Buck, professora associada da Universidade de Buffalo e ex-funcionária do Departamento de Energia dos EUA, recentemente publicou um artigo na revista Jacobin que gerou polêmica ao criticar a proposta de uma moratória nacional aos data centers de IA. Segundo Buck, a medida seria um "erro estratégico massivo" para a esquerda, pois ignora implicações de justiça global e não considera os interesses de longo prazo de ativistas ambientais e outros grupos.

Críticas e elogios à proposta

A discussão sobre a moratória dividiu opiniões. Enquanto pensadores como Matthew Yglesias, ligados à corrente da Abundance, elogiaram o artigo, outros ativistas contrários aos data centers, como Ben Inskeep da Citizens Action Coalition of Indiana, criticaram duramente a posição de Buck. Para entender melhor o debate, a jornalista conversou com a professora, que aceitou o convite prontamente.

O que é "slopulismo" e como se aplica aos data centers?

Buck foi questionada se as moratórias aos data centers poderiam ser consideradas um exemplo de "slopulismo" — termo que define políticas populistas de baixo esforço, focadas em gratificação emocional e ressentimento elitista, em vez de soluções substantivas.

Ela respondeu que não tem uma definição clara do termo, mas reconheceu que, embora a proposta da moratória seja bem elaborada do ponto de vista retórico, não é uma política eficaz. "As pessoas que defendem essa teoria de mudança não a veem como slopulismo", afirmou. "Elas acreditam que é uma tática de negociação para mostrar à indústria tech que não tem licença social para operar."

Coalizões de esquerda e direita: interesses divergentes

Um dos principais argumentos de Buck é que as coalizões de esquerda e direita que se opõem aos data centers têm interesses distintos em outras pautas. Além disso, a proibição desses centros não garante, necessariamente, um avanço na transição energética ou políticas sociais para lidar com a substituição de empregos.

Segundo ela, a esquerda deve repensar sua estratégia para evitar alianças que não compartilham objetivos de longo prazo. "A moratória pode ser um beco sem saída", disse Buck. "Precisamos pensar em soluções que realmente avancem na justiça climática e na regulação adequada, em vez de simplesmente barrar projetos."

Legado histórico de moratórias

Buck também destacou que, historicamente, campanhas de moratória têm sido usadas como estratégia de advocacy, como no caso de proibições temporárias até que regulamentações sejam estabelecidas. No entanto, ela questiona a eficácia desse modelo quando aplicado aos data centers de IA, devido à complexidade dos interesses envolvidos.

O que vem pela frente?

A discussão sobre data centers e seus impactos ambientais e sociais continua em aberto. Enquanto alguns defendem a moratória como uma forma de pressionar por mudanças, outros, como Buck, argumentam que é necessário um debate mais amplo e estratégico para garantir que as políticas públicas estejam alinhadas com os interesses da justiça climática e social.