Desde os primórdios da pandemia de Covid-19, máscaras faciais se tornaram parte do cotidiano em estações de trem, aeroportos e outros espaços públicos ao redor do mundo. No entanto, enquanto a sociedade busca soluções para conter a disseminação de doenças respiratórias, uma tecnologia antiga e pouco conhecida pode oferecer uma proteção adicional: os glicóis.

Presentes em produtos do dia a dia — de cosméticos a tecidos sintéticos, passando por refrigerantes e pastas de dente —, esses compostos químicos derivados do petróleo e do gás natural são amplamente utilizados na indústria. No entanto, sua capacidade de combater patógenos no ar é o que chama a atenção de cientistas e especialistas em saúde pública.

Como os glicóis atuam contra vírus e bactérias

Quando vaporizados no ambiente, os glicóis, como o propilenoglicol (PG), o dipropilenoglicol (DPG) e o trietileno glicol (TEG), inativam rapidamente vírus, bactérias e esporos de fungos. O mais impressionante é que essas substâncias permanecem em concentrações tão baixas que são invisíveis, inodoras e insípidas para os seres humanos.

Segundo estudos, os vapores de TEG, por exemplo, custariam apenas entre R$ 0,50 e R$ 2,50 por dia para proteger um ambiente de 1.000 m². Embora o mecanismo exato de ação ainda não seja totalmente compreendido, pesquisas demonstram que os glicóis são eficazes contra vírus envelopados — como o SARS-CoV-2, o influenza e o Ebola — tanto no ar quanto em superfícies.

Evidências históricas e promessas modernas

Os benefícios dos glicóis no controle de infecções não são novidade. Um estudo realizado entre 1941 e 1944 em um hospital pediátrico nos Estados Unidos revelou uma redução de 96% nos casos de resfriado em alas tratadas com vapores de glicol, em comparação com aquelas que não receberam o tratamento. Além disso, os pacientes nessas alas tiveram 90% menos casos de traqueobronquite, otite média e faringite aguda.

Jacob Swett, diretor-executivo da Blueprint Biosecurity, organização sem fins lucrativos focada na prevenção de pandemias, destaca que, embora as metodologias de pesquisa tenham evoluído desde então, os resultados históricos reforçam o potencial dessa tecnologia. "Diferentes épocas exigem padrões de pesquisa distintos, mas isso mostra onde o potencial pode estar", afirmou.

Por que a tecnologia caiu no esquecimento?

Na década de 1940, a comercialização de glicóis como desinfetantes de ambientes era comum. Anúncios de jornais promoviam dispositivos como "glicolizadores" e "glicoladores" para proteger residências e escritórios. No entanto, com o advento dos antibióticos e a popularização de métodos de higiene mais acessíveis, o interesse por essa tecnologia diminuiu.

Hoje, com o surgimento de novas variantes de vírus e a ameaça constante de pandemias, pesquisadores e empresas estão reavaliando o papel dos glicóis. "A pandemia de Covid-19 mostrou que precisamos de soluções proativas, não apenas reativas", disse Swett. "Os glicóis podem ser uma ferramenta valiosa para reduzir a transmissão de doenças antes que elas se espalhem."

Desafios e perspectivas futuras

Apesar das evidências promissoras, a implementação em larga escala enfrenta obstáculos. Um dos principais desafios é a regulamentação e a aceitação pública. "As pessoas ainda associam a palavra 'químico' a algo perigoso, mesmo que substâncias como o TEG sejam seguras em baixas concentrações", explica Swett.

Além disso, é necessário mais pesquisa para determinar a eficácia dos glicóis contra novos patógenos e em diferentes ambientes, como hospitais, escolas e transporte público. No entanto, com o avanço da tecnologia e a crescente preocupação com doenças respiratórias, a reintegração dos glicóis como ferramenta de prevenção pode estar mais próxima do que se imagina.

"Os glicóis não são uma solução mágica, mas representam uma camada adicional de proteção que pode ser crucial em um mundo cada vez mais conectado e exposto a patógenos."
— Jacob Swett, Blueprint Biosecurity
Fonte: Vox