A cozinha de Alnice Poxo Munduruku, no coração da Amazônia, guarda uma tradição ancestral: o preparo de peixes frescos do rio Tapajós. Enquanto o fogo crepita, a família limpa o alimento, sempre atenta ao pequeno Aleckson, de 11 anos. Nascido com paralisia cerebral, a condição limita seus movimentos e fala, exigindo cuidados constantes desde o nascimento. Como todos na comunidade, ele adora peixe. No entanto, o alimento que sustenta a vida na região carrega um perigo invisível: o mercúrio.

Contaminação generalizada e a origem do problema

Testes realizados pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) revelaram que Aleckson, seus pais e quase todos os moradores das comunidades vizinhas apresentam níveis de mercúrio acima do limite seguro. A contaminação está diretamente ligada à mineração de ouro na região, onde o mercúrio é usado para separar o metal. O produto químico, então, se espalha pelos rios e entra na cadeia alimentar, afetando a saúde da população.

A situação não é resultado apenas da mineração ilegal. Decisões e omissões do governo brasileiro também contribuem para o problema. Uma investigação exclusiva da InfoAmazonia identificou que a Agência Nacional de Mineração (ANM) mantém permissões de mineração com indícios de irregularidades, como produção declarada de ouro sem comprovação de extração compatível com os volumes registrados — prática classificada por órgãos fiscalizadores como "lavagem de ouro".

Permissões de mineração: do artesanal ao industrial

Criadas em 1989 para regulamentar a mineração durante a corrida do ouro no Tapajós, entre o final dos anos 1970 e 1990, as Permissões de Lavra Garimpeira (PLGs) foram inicialmente concebidas como uma autorização simplificada para operações de pequeno porte e baixo impacto. Décadas depois, o que começou como mineração artesanal se transformou em extração em escala industrial, com uso de maquinário pesado, dragas e mercúrio. Essas permissões agora servem como fachada de legalidade para grandes operações de mineração ilegal na região, burlando os limites legais.

Auditorias e operações revelam irregularidades

Há mais de uma década, órgãos fiscalizadores alertam a ANM sobre o uso irregular das PLGs. Em 2022, a Controladoria-Geral da União (CGU) identificou uma série de ilegalidades em auditoria. No ano seguinte, a Operação Sisaque, conduzida pela Polícia Federal (PF), Receita Federal e Ministério Público Federal (MPF), desmantelou um dos maiores esquemas de lavagem de ouro da Amazônia, que utilizava PLGs no Tapajós. Em 2025, o Tribunal de Contas da União (TCU) chegou a conclusões semelhantes, apontando falhas estruturais que permitem a legalização de ouro de origem ilegal.

Dados revelam prática de lavagem de ouro

Apesar das advertências, a investigação da InfoAmazonia constatou que, entre 2022 e 2026, das 540 PLGs que declararam venda de ouro na bacia do rio Tapajós, quase metade (263) não apresentou evidências de extração compatível com os volumes declarados. Isso sugere que essas permissões podem estar sendo usadas para lavar ouro extraído ilegalmente em outras localidades — prática conhecida como "lavagem de ouro".

Cerca de 70% das atividades de mineração na região estão localizadas a menos de 10 km das PLGs que declararam produção de ouro. Essa proximidade indica que operações de mineração ilegal, inclusive aquelas dentro de áreas de conservação e terras indígenas, podem estar utilizando essas permissões para inserir seu ouro no mercado formal.

Quase 60% do ouro proveniente de mineração legalizada no Brasil passou por algum tipo de processo de legalização, segundo dados oficiais. A situação expõe não apenas os riscos ambientais e à saúde pública, mas também a fragilidade do sistema de fiscalização, que permite que o crime organizado se aproveite de brechas legais para operar com aparência de legalidade.

"As PLGs se tornaram um instrumento de legalização de ouro de origem duvidosa, facilitando a lavagem de ouro ilegal e colocando em risco ecossistemas e comunidades inteiras."

Fonte: Grist