Virginia aprova novo mapa congressional após reforma fracassada

A Virgínia, nos EUA, aprovou em referendo um novo mapa congressional que favorece fortemente os democratas. A decisão põe fim a uma breve experiência de redistrituição não-partidária, iniciada em 2019 com apoio bipartidário. O resultado, no entanto, mostra como a política partidária continua a dominar o processo nos EUA.

Reforma de 2019 e o fracasso da comissão

Em 2019, legisladores da Virgínia, com apoio bipartidário, criaram uma comissão para desenhar o mapa congressional com participação pública. A iniciativa foi inédita no estado. Porém, a comissão não conseguiu chegar a um acordo e ficou paralisada. Sem solução, a Suprema Corte da Virgínia nomeou dois especialistas — apelidados de "mestres especiais" — para elaborar um novo mapa antes das eleições de 2022.

Apesar dos problemas, o mapa produzido pela corte foi elogiado por especialistas em reforma de redistrituição. O Gerrymandering Project da Universidade de Princeton atribuiu nota "A" ao mapa, destacando sua compactação e competitividade. No entanto, o avanço durou pouco.

Eleitores rejeitam reforma e aprovar novo mapa partidário

Em referendo encerrado na terça-feira, eleitores da Virgínia rejeitaram o mapa produzido pela Suprema Corte. O novo mapa, agora em vigor até 2030, foi desenhado com clara intenção partidária. Segundo analistas, o resultado beneficiará os democratas, que devem eleger 10 dos 11 representantes no Congresso a partir de 2025. Atualmente, a divisão é de 6 democratas e 5 republicanos.

A mudança representa um desequilíbrio significativo em um estado que a vice-presidente Kamala Harris venceu por menos de 6 pontos percentuais em 2024. O novo mapa distorce as fronteiras dos distritos para maximizar a influência democrata, especialmente na região norte do estado, próxima a Washington, D.C.

O 7º distrito: um exemplo de gerrymandering

Um dos distritos mais criticados é o 7º, que inclui a região onde mora o autor do texto original. A configuração do distrito lembra um lagostim monstruoso, com uma cauda próxima ao rio Potomac, uma garra estendendo-se até os subúrbios de Richmond e outra alcançando o oeste do estado, próximo à fronteira com a Virgínia Ocidental.

Especialistas usam métodos como o Polsby-Popper para avaliar a compactação de distritos. No entanto, o gerrymandering muitas vezes é um problema que se reconhece à primeira vista. Neste caso, não é necessário recorrer a cálculos complexos para concluir que o novo mapa da Virgínia é uma distorção partidária.

Republicanos iniciaram a batalha e não podem se vitimizar

Os republicanos da Virgínia, que agora protestam contra o novo mapa, não podem se apresentar como vítimas. A indignação conservadora com o "lagostim" e a possível perda de cadeiras no Congresso é compreensível, especialmente porque muitos jornalistas e analistas conservadores vivem na região norte do estado. No entanto, a postura soa hipócrita.

Sob pressão do ex-presidente Donald Trump, republicanos em estados como Carolina do Norte e Texas também promoveram mudanças nos mapas congressionais para criar mais distritos favoráveis ao partido. A estratégia, chamada de gerrymandering partidário, é uma prática comum nos EUA, mas raramente é admitida abertamente.

O que esperar agora?

O novo mapa da Virgínia permanecerá em vigor até as eleições de 2030, quando, em tese, uma nova comissão será formada para atualizar os distritos após o censo. Até lá, os eleitores do estado terão que conviver com um sistema que privilegia claramente um dos partidos. A decisão reforça a necessidade de reformas mais profundas no processo de redistrituição nos EUA, mas, por enquanto, a política partidária continua a moldar o mapa eleitoral.

"A Virgínia mostrou que, mesmo com boas intenções, a reforma de redistrituição pode ser facilmente revertida pela política partidária. O resultado é um mapa que beneficia um partido em detrimento da representação equilibrada."

Fonte: Reason