O prazer em meio ao sofrimento
Budistas acreditam que a vida é sofrimento. Muitos concordariam. Para mim, no entanto, possuir um carro clássico é sinônimo de sofrimento. E é exatamente isso que mais gosto nessa experiência.
Recentemente, investi R$ 150 mil e 13 meses restaurando um International Scout Traveler de 1976. Nesse período, enfrentei uma crise existencial, esvaziei minha conta bancária e acumulei dezenas de cortes e queimaduras de solda. Em junho do ano passado, a restauração culminou em uma viagem de 925 km por uma das trilhas off-road mais difíceis do Oregon, a McGrew Trail.
A aventura não foi fácil. Problemas mecânicos e imprevistos poderiam ter estragado o entusiasmo de qualquer pessoa racional. Eu, porém, estava no paraíso. Surdo com o rugido do V-8, coberto por uma mistura de suor, óleo e líquido de arrefecimento, vivi o que considero a experiência mais gratificante da minha vida.
O início de tudo: uma compra arriscada
Tudo começou em maio de 2024, em Bend, Oregon. Foi lá que comprei o Scout sem vê-lo pessoalmente — um erro que todo comprador experiente evita e que sempre recomendei aos outros. Isso já diz muito sobre meu julgamento.
A oferta estava simultaneamente no Craigslist e no eBay, com fotos de baixa qualidade. O anúncio prometia radiador novo, carburador novo e sistema de escapamento duplo. Após negociar por telefone, consegui um desconto e viajei três horas até Bend para buscar um veículo que nunca havia tocado e conhecia muito pouco.
O Scout veio com um cavalete de duas rodas, outro sinal de alerta que ignorei. A eletrônica não funcionava, mas eu já sabia disso e estava disposto a lidar com o que viesse pela frente.
O primeiro problema: uma lição de humildade
Após carregar o Scout, dirigi alguns quarteirões até um food truck para almoçar. Percebi que o peso não estava distribuído corretamente e parei para ajustar. Para isso, precisei mudar a alavanca da caixa de transferência do neutro para o tração 4x4 alta. Ao puxar o câmbio, senti que ele estava estranhamente mole. Puxei com mais força e, de repente, a alavanca se soltou completamente em minha mão, acompanhada por um barulho metálico vindo de baixo do carro.
A ligação da caixa de transferência havia se desintegrado, travando o veículo permanentemente na tração 4x4 baixa. Isso impedia que eu rebocasse o Scout. Fiquei parado em um estacionamento em Bend com um carro que não podia transportar.
Liguei para o vendedor, que, como esperado, respondeu com um
‘Nossa, que loucura. Bem, boa sorte com isso!’
Com minha caixa de ferramentas, consegui pelo menos remover o eixo cardã traseiro. Depois de jogá-lo no banco traseiro, reboquei o veículo problemático para casa apenas com as rodas dianteiras, deixando o eixo traseiro para trás.
Por que o sofrimento vale a pena
Apesar dos contratempos, a restauração e a viagem final representaram muito mais do que um simples projeto mecânico. Foram meses de aprendizado, superação e, acima de tudo, paixão.
O International Scout Traveler não era apenas um carro; era um desafio pessoal. Cada problema resolvido, cada peça substituída e cada quilômetro percorrido na trilha McGrew reforçaram o sentimento de realização. Não se trata apenas de possuir um clássico, mas de viver a experiência completa — inclusive o sofrimento que a acompanha.