Sinner Supper Club, novo lançamento de Nora Kaye e Daisy Rosato, chega como uma reinvenção do estilo mumblecore, agora adaptado para uma narrativa queer e improvisada. O filme, rodado em apenas seis dias com câmeras de celular, mistura drama, elementos de horror e realismo cru para contar a história de um grupo de amigos LGBTQ+ diante da perda de um ente querido e da pressão imobiliária em Nova York.

Do mumblecore ao queer: uma evolução do gênero

O mumblecore sempre foi conhecido por sua abordagem DIY, com produções independentes, câmeras handheld e atores não profissionais. Filmes como The Puffy Chair e Baghead exemplificam essa estética, que rejeita o sistema de estúdios em favor de um cinema feito por e para comunidades. Kaye e Rosato levaram essa filosofia adiante, mas com um recorte diverso: "E se, em vez de predominantemente homens cis brancos, tivéssemos nossa comunidade incrível de palhaços, pessoas trans e queer?", questiona Kaye.

A trama acompanha um grupo de amigos LGBTQ+ que se reúne para uma festa de despedida antes que um deles se mude, vítima do alto custo de vida em Nova York. O reencontro, no entanto, é marcado pela tensão de um luto recente, adicionando uma camada de desconforto e melancolia à narrativa. Essa abordagem levou alguns críticos a classificar o filme como "mumblegore", um subgênero emergente que mescla mumblecore com elementos de horror.

Horror e realismo: a dualidade de Sinner Supper Club

Sophie Sagan-Gutherz, uma das estrelas do filme, explica que o mumblegore "leva o mumblecore a outro nível, criando uma experiência que gera estresse e desconforto". Embora o filme não seja um terror convencional, há momentos em que a tensão é palpável, especialmente nas cenas que exploram o luto e os conflitos internos do grupo.

As diretoras também se inspiraram no movimento Dogme 95, fundado por Lars von Trier e Thomas Vinterberg, que propunha a eliminação de artifícios cinematográficos em favor de um estilo mais cru e autêntico. Para isso, optaram por filmar inteiramente com um iPhone, uma escolha que, segundo Rosato, foi tanto criativa quanto prática: "Há uma nostalgia recente pelos mini DV e filmadoras amadoras, mas queríamos algo que fosse do agora. O iPhone se tornou nossa versão moderna de uma câmera de orçamento limitado".

Por que um iPhone?

A decisão de usar um celular não foi apenas estética. Rosato destaca que a praticidade do equipamento permitiu filmar cenas em condições extremas, como submergir a câmera em um chuveiro ou fixá-la em uma bicicleta. "Não tínhamos que nos preocupar com a câmera quebrar, e isso nos deu liberdade para capturar performances intensas e improvisadas", explica. Kaye complementa: "O iPhone nos permitiu ficar perto dos atores, criando uma sensação de propulsão e frenesi. Não precisávamos interromper as cenas para ajustar equipamentos".

Um retrato da comunidade queer e do luto contemporâneo

Além de sua estética inovadora, Sinner Supper Club se destaca por sua representatividade. O filme retrata um grupo de amigos LGBTQ+ lidando com a perda, a gentrificação e as pressões sociais, temas que ressoam fortemente na comunidade queer. "Queríamos mostrar a imperfeição do luto e como as pessoas lidam com ele de maneiras diferentes", diz Kaye.

A improvisação foi fundamental para capturar a autenticidade das performances. "Os atores tinham liberdade para explorar suas próprias experiências e emoções, o que tornou o filme ainda mais pessoal", afirma Rosato. O resultado é uma obra que, embora imperfeita, reflete a complexidade das relações humanas e a resiliência de uma comunidade que enfrenta desafios diários.

"O mumblecore sempre foi sobre quebrar regras. Nós levamos isso adiante, mas com uma perspectiva queer e uma narrativa que fala sobre o que significa perder alguém e ainda assim seguir em frente."
— Nora Kaye, diretora de Sinner Supper Club