A busca por "alambique caseiro" no Amazon revela uma variedade de equipamentos projetados para separar e concentrar os componentes mais voláteis de misturas líquidas. Muitos são explicitamente anunciados como dispositivos para produzir bebidas alcoólicas, como uísque, brandy, gim e vodca. No entanto, adquirir um desses produtos com a intenção de usá-lo para esse fim configura um crime federal nos Estados Unidos.
A proibição federal à produção caseira de destilados existe desde 1868, quando o Congresso a incluiu em uma lei mais ampla voltada à arrecadação de impostos sobre bebidas alcoólicas. Recentemente, duas decisões de tribunais federais de apelação reacenderam o debate sobre a constitucionalidade dessa norma. Em McNutt v. U.S. Department of Justice, o Tribunal de Apelações do 5º Circuito determinou que a proibição não pode ser justificada como uma medida de arrecadação de receita. Onze dias depois, em Ream v. U.S. Department of Treasury, o Tribunal de Apelações do 6º Circuito discordou, argumentando que o poder tributário federal e a autoridade constitucional do Congresso para criar leis "necessárias e apropriadas" justificam a proibição.
Essas decisões conflitantes criaram uma divergência entre circuitos judiciais, um cenário que a Suprema Corte dos EUA pode estar inclinada a resolver. A questão central envolve o alcance do poder federal, com implicações que vão além da produção caseira de destilados.
O que diz a lei federal?
O Código dos EUA, Seção 26 USC 5178(a)(1)(B) proíbe expressamente a instalação de destilarias em residências, galpões, pátios ou embarcações. A penalidade por descumprimento, conforme o Código dos EUA, Seção 26 USC 5601(a)(6), inclui multa de até US$ 10 mil, prisão de até cinco anos ou ambas as sanções.
Decisão do 5º Circuito: proibição não é medida tributária
Em 2024, o juiz distrital Mark T. Pittman, do Texas, emitiu uma liminar permanente proibindo o governo federal de aplicar a proibição contra Scott McNutt, líder da Hobby Distillers Association (HDA), e outros membros da associação. O Tribunal de Apelações do 5º Circuito manteve a decisão, rejeitando o argumento de que a proibição seria uma medida de arrecadação de impostos.
Segundo a juíza Edith Jones, autora do parecer da maioria, as normas questionadas não têm relação com a arrecadação de receitas. "Nenhuma das disposições levanta receitas. Ao contrário, elas proíbem destilarias caseiras e, ao fazê-lo, atuam como uma proibição antirreceita, impedindo que os destilados sequer sejam produzidos", escreveu Jones. "As disposições operam para reduzir a receita em vez de aumentá-la."
Posicionamento do 6º Circuito: poder tributário federal justifica a proibição
Já o Tribunal de Apelações do 6º Circuito, com sede em Cincinnati, adotou posição oposta. Em sua decisão, o painel argumentou que o poder tributário federal, combinado à autoridade constitucional do Congresso para criar leis "necessárias e apropriadas", sustenta a constitucionalidade da proibição. A corte não considerou a justificativa baseada no Comércio Interestadual, pois o governo desistiu desse argumento durante o processo.
Qual será o próximo passo?
A divergência entre os circuitos judiciais aumenta a probabilidade de que a Suprema Corte dos EUA intervenha para uniformizar a interpretação da lei. A decisão poderia redefinir não apenas a produção caseira de destilados, mas também o alcance do poder federal em outras áreas regulatórias e tributárias.
"A questão não é apenas sobre destilados caseiros. Trata-se de até onde o Congresso pode ir na regulamentação de atividades que, em tese, poderiam afetar a arrecadação de impostos."