Uma suposta tentativa de assassinato contra Donald Trump durante o jantar da Associação de Correspondentes da Casa Branca (WHCA), no sábado (17), reacendeu o debate sobre violência política nos Estados Unidos. A direita rapidamente acusou democratas e a esquerda de serem coniventes com atos violentos, repetindo alegações infundadas que ganharam força nas últimas semanas.

Entre os que propagaram essas acusações estão figuras como a apresentadora da Fox News Laura Ingraham, que afirmou existir uma "cultura de assassinatos" no Partido Democrata. A secretária de imprensa da administração Trump, Karoline Leavitt, também contribuiu para o discurso, sugerindo que metáforas como "cabeças precisam rolar" — usadas por políticos democratas — equivaleriam a incitação à violência. Já o procurador-geral interino, Todd Blanche, criticou a mídia por ser "excessivamente crítica" e usar termos como "horríveis" para se referir ao presidente.

A jornalista Batya Ungar-Sargon, da NewsNation, publicou em sua coluna no Substack que o protesto Unite the Right, em Charlottesville (2017), teria sido financiado pela Southern Poverty Law Center (SPLC), organização de esquerda. No entanto, a acusação não tem fundamento: o processo federal contra a SPLC menciona apenas o pagamento a informantes infiltrados em grupos de extrema direita, incluindo um que teria ajudado a coordenar transporte para participantes do evento. Não há provas de que o protesto tenha sido uma armadilha ou que a organização tenha financiado a violência, que resultou na morte de uma contraprotestante atropelada por um extremista.

Ungar-Sargon também citou uma pesquisa da YouGov de setembro de 2025, segundo a qual liberais teriam maior tendência a justificar a violência política do que conservadores. Entre os menores de 45 anos, 26% dos liberais e apenas 7% dos conservadores consideraram que a violência pode ser aceitável para atingir objetivos políticos. Contudo, a pesquisa foi realizada logo após o assassinato de Charlie Kirk, e dados do mesmo levantamento indicam que tanto democratas quanto republicanos tendem a ver a violência política como um "problema muito grande" após ataques violentos contra seus aliados.

Outros levantamentos apresentam resultados distintos. Uma pesquisa da NPR/PBS News/Marist, também de setembro de 2025, revelou que 31% dos republicanos e 28% dos democratas concordaram com a afirmação de que "americanos podem ter que recorrer à violência para colocar o país nos trilhos". A formulação das perguntas influencia diretamente as respostas: quando indagados se a violência é "frequentemente necessária para mudanças sociais", mais liberais concordam; já ao questionar se "patriotas verdadeiros podem precisar recorrer à violência para salvar o país", o dobro de apoiadores de Trump em relação aos opositores responderam afirmativamente.

Quanto à violência real, o site de sátira Babylon Bee — embora não seja uma fonte factual — reforça a percepção de que a extrema direita é a principal responsável por atos violentos nos EUA. Enquanto isso, a mídia conservadora continua a vincular incidentes isolados a narrativas amplas sobre a esquerda, sem apresentar evidências consistentes.