Nos últimos meses, uma teoria conspiratória ganhou força nos Estados Unidos, envolvendo supostos desaparecimentos e mortes misteriosas de cientistas americanos, todos ligados a pesquisas sobre OVNIs. A história, inicialmente restrita a círculos alternativos, rapidamente migrou para a mídia tradicional e até para o Congresso, com o ex-presidente Donald Trump pedindo uma investigação do FBI sobre o caso.

No entanto, especialistas destacam que as evidências que conectam esses eventos são extremamente frágeis. Além disso, essa não é a primeira vez que uma teoria semelhante ganha tração. Desde pelo menos dez anos, comunidades ligadas à saúde natural e ao movimento antivacina espalham a ideia de que médicos holísticos estariam sendo assassinados por supostamente deterem conhecimentos perigosos para o Deep State ou a indústria farmacêutica.

Um dos principais disseminadores dessa teoria afirma que pelo menos cem médicos holísticos teriam sido mortos. Embora a narrativa seja tratada como um fato incontestável em alguns círculos, ela nunca ganhou grande repercussão na mídia mainstream ou no cenário político, nem mesmo durante a gestão de um presidente conhecido por abraçar teorias conspiratórias.

O caso do general aposentado William McCasland

O caso dos cientistas desaparecidos ganhou força em abril, após a suposta ligação com o desaparecimento do major-general William Neil McCasland, de 68 anos. McCasland, ex-oficial da Força Aérea dos EUA e engenheiro aeroespacial, ocupou cargos em uma base há muito associada a relatos de OVNIs. Ele foi visto pela última vez em 27 de fevereiro próximo à sua casa em Albuquerque, no Novo México, região próxima a uma vasta área de trilhas conhecida como Elena Gallegos Open Space.

Sua real situação logo foi misturada a outras alegações infundadas por apoiadores do movimento MAGA e por veículos de mídia como o Daily Mail e o New York Post. Este último publicou pelo menos 14 matérias sugerindo, sem provas, que cientistas e outras figuras teriam morrido ou desaparecido em circunstâncias suspeitas. Em uma dessas reportagens, publicada em abril de 2023, o jornal mencionou a morte de Michael David Hicks, um cientista de 59 anos que trabalhou no Laboratório de Propulsão a Jato da NASA. O texto descreveu sua morte como "misteriosa", sem causa ou autópsia definida, e o classificou como um "cientista da NASA".

Semelhanças com teorias conspiratórias antigas

A rápida disseminação da teoria sobre os cientistas de OVNIs contrasta com a trajetória de outra narrativa conspiratória, que circula há anos entre defensores da saúde natural. Nessa versão, médicos holísticos estariam sendo assassinados por deterem conhecimentos que ameaçariam interesses poderosos. Embora a história seja repetida como um dogma em conferências e boletins, ela nunca alcançou a mesma visibilidade ou credibilidade.

Especialistas apontam que a diferença no alcance dessas teorias reflete mudanças profundas no ecossistema de mídia e no ambiente político atual. Enquanto a teoria dos médicos holísticos permaneceu restrita a nichos, a história dos cientistas de OVNIs rapidamente ganhou espaço em veículos de grande circulação e até chamou a atenção de autoridades federais.

"A velocidade com que essas narrativas se espalham hoje é alarmante. A falta de verificação de fatos e a busca por cliques muitas vezes superam a responsabilidade jornalística", afirmou um analista de mídia.

À medida que a teoria dos cientistas desaparecidos ganha força, especialistas alertam para os riscos de disseminar informações sem fundamento, que podem prejudicar reputações e semear desconfiança na ciência.