O momento que revelou a censura corporativa
Há alguns meses, o apresentador Stephen Colbert chocou o público ao rasgar um memorando de sua emissora, a CBS, em pleno ar. "Não sei nem o que fazer com essa porcaria", declarou, indignado. O documento proibia a exibição de uma entrevista com o candidato ao Senado James Talarico, sob a justificativa de que poderia violar a regra de tempo igual da Federal Communications Commission (FCC) — uma norma que, curiosamente, não era aplicada há quase 20 anos em programas de entretenimento.
A decisão da CBS não foi isolada. Naquele mesmo período, a Paramount, dona da emissora, buscava a aprovação do governo Trump para uma fusão com a Warner Bros. Discovery. Coincidência? Não para quem conhece a história recente da mídia americana.
O padrão de submissão aos poderosos
Esta não foi a primeira vez que a CBS cedeu a pressões políticas. Em 2017, antes da venda da rede para a National Amusements, dona Shari Redstone teria orientado a equipe do 60 Minutes a evitar críticas a Donald Trump — medida que facilitou a aprovação da transação. Agora, com David Ellison e seu pai, Larry, no comando da Paramount, a nomeação de Bari Weiss, conhecida por suas críticas à esquerda midiática, como editora-chefe da CBS, reforça a tendência.
O caso da CBS é apenas um exemplo de um problema maior: a subordinação da imprensa a interesses corporativos e políticos. O Washington Post, de Jeff Bezos, também seguiu esse roteiro. Em 2016, o jornal retirou o apoio à candidata Kamala Harris. Pouco depois, Bezos, que havia participado da posse de Trump, anunciou que as páginas de opinião do Post passariam a priorizar "liberdades pessoais e livre mercado". Um ano depois, 40% dos funcionários foram demitidos.
O jornalismo como negócio: uma relação doentia
A história da mídia americana é marcada por momentos em que o lucro se sobrepôs ao compromisso com a verdade. Na década de 1980, a CBS começou a priorizar audiência e resultados financeiros, chegando a censurar uma entrevista com o denunciador da indústria do tabaco, Jeffrey Wigand, em 1995. O New York Times, por sua vez, falhou em cobrir a epidemia de AIDS nos anos 1980 e endossou, nos anos 1990, a narrativa racista dos "superpredadores".
Na reta para a Guerra do Iraque, o Post ignorou seus próprios repórteres que desmascaravam as mentiras do governo Bush sobre armas de destruição em massa, enquanto o Times deu espaço à jornalista Judith Miller, que amplificou essas falsidades. Desde então, os empregos em redações nos EUA caíram 80% — mais rápido do que no setor de mineração de carvão.
Por trás disso, estão conglomerados multinacionais (GE, Westinghouse, Verizon, Comcast) e fundos de investimento (como o Alden Global Capital), para quem o jornalismo é, no máximo, um side hustle — e, na pior das hipóteses, um incômodo.
Por que a independência jornalística é urgente
Este cenário explica por que, há décadas, ouvimos o "som de sucção" das redações sendo esvaziadas. A mídia tradicional, pressionada por acionistas e governos, muitas vezes abre mão de sua missão de fiscalizar o poder em nome de lucros e alianças políticas.
É nesse contexto que organizações como a Mother Jones ganham relevância. Com o apoio de seus leitores, conseguimos não apenas resistir a essas pressões, mas também expor casos como o da CBS e do Washington Post. Não se trata de um embate ideológico, mas de defender um jornalismo livre, crítico e comprometido com a verdade — mesmo quando isso contraria os interesses dos poderosos.
"A imprensa livre é o alicerce de uma democracia saudável. Quando ela se curva a interesses escusos, todos nós perdemos."
O que podemos aprender com essa batalha
- O jornalismo não pode ser refém de acionistas ou governos. Quando a mídia se torna um braço de marketing corporativo ou político, a sociedade é a maior prejudicada.
- O público tem o poder de mudar essa realidade. Ao apoiar veículos independentes, os leitores ajudam a manter viva a imprensa crítica e investigativa.
- A censura não é sempre explícita. Ela se disfarça de "coincidências", de "orientações jurídicas" ou de "prioridades comerciais" — mas seu efeito é o mesmo: sufocar a verdade.
O caso de Stephen Colbert e a CBS é apenas a ponta do iceberg. A luta por um jornalismo livre é diária, e cada vitória — por menor que pareça — é um passo importante. Afinal, como diz o título deste artigo: juntos, nós vencemos Bezos e todos os que tentam nos calar.